Não é necessário ser especialista em sistema carcerário para saber que o que está acontecendo no Brasil já podia ter acontecido há muito tempo. Que o barril de pólvora apenas começou a explodir agora.

O grupamento de pessoas organizado dentro de prisões existe desde que existe prisões no mundo. Basta ir ao museu penitenciário de São Paulo, no Carandiru, para saber disso.

É mais raso ainda explicar que as facções surgem, crescem e amadurecem sob olhos e braços do Estado. As facções ganham força justamente pela repressão do Estado e pela falta do Estado em questões essenciais à dignidade humana, como saneamento básico, educação, saúde e lazer.

O que havia, desde o massacre do Carandiru, era um pacto de respeito entre facções e governos.

De um lado, não é possível liberar pessoas que erraram, em alguns momentos de forma grave, contra a lei. É preciso que elas paguem aquilo o que devem, que arquem com as consequências.

De outro lado, o Estado tem de fazer aquilo que está na lei: tratar com dignidade humana todo aquele que estiver sob sua custódia.

E as facções surgem, dentro das cadeias, justamente nesse erro. No Brasil, o preso não é reeducado a viver em sociedade, como é a premissa teórica das cadeias. No Brasil, ele é ensinado a odiar.

O preso odeia o carcereiro, o policial, o seu companheiro de cela que não compartilha dos mesmos sentimentos e ideais. Odeia se levado para longe de seus amigos e família. É ódio o tempo inteiro no exílio.

O preso sabe que, quando ele sair da cadeia, todo esse ódio que ele sente vai ser o mesmo sentimento da sociedade para com ele. Ele dificilmente vai conseguir viver fora da vida do crime.



A facção o abraça dentro do presídio. E ele passa a entender e exigir seus direitos. Como sabe que na rua não encontrará apoio, passa a entender como o melhor para a sua vida loka o mundo do crime.

Na quebrada, o seu filho, vizinho, chegado, a quem todo mundo vira as costas, por morar longe ou não ter uma condição financeira positiva, a facção dá a mão. Dá emprego. Age como o Estado devia agir. E agora é tarde para cobrar.

Nosso ministro da Justiça e o nosso presidente não conhecem os becos e vielas. E está nítido que desconhecem, também, as problemáticas que envolvem o sistema penitenciário brasileiro.

55 mortes em Manaus. 33 em Roraima. 88 pessoas. É muita gente morta sob a custódia do Estado. Se estivéssemos em um país sério, o ministro já teria sido exonerado, Temer já estaria em contato com os familiares das vítimas e os diretores dos presídios, presos.

Enquanto isso, tem (agora ex) secretário do governo que debocha, dizendo que é filho de policial e que devia haver uma chacina em presídio por mês.

E o que me assusta é que, inconscientemente, a população também pensa isso. Não houve, até agora, pressão popular eficaz cobrando explicações sobre o assunto. Eram presidiários. Aqueles que a sociedade quer mesmo que morram.

Enquanto isso, a solução encontrada pelo governo é a construção de mais presídios. Para ter mais gente sob a custódia do Estado se organizando contra o poder do Estado.

Está tudo errado. E não querem mudar o cenário. Nem por parte da sociedade, tampouco do governo. Enquanto isso, ficamos todos assistindo a guerra começar. 

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