No último domingo, no jogo entre Flamengo e Palmeiras, o estádio Mané Garrincha (também conhecido por ser um dos elefantes brancos da Copa do Mundo) foi palco não de um grande jogo de futebol, mas de um brutal confronto entre “torcedores” organizados. Durante o intervalo da partida, diversos focos de briga, dentro e fora do estádio, tumultuaram o que deveria ser um espetáculo.

Foi o jogo com maior público da rodada: 54 mil pessoas. O saldo foi muito além do 2×1 para o time paulista. Trinta torcedores palmeirenses foram detidos e um do Flamengo está gravemente ferido.

Para tentar parar a briga, a polícia usou spray de pimenta, ação que causou mal estar geral. Jogadores vomitaram em campo, como foi o caso de Fernando Prass, goleiro do Palmeiras, e torcedores tiveram de sair correndo para não serem afetados.

A cena que deveria ter sido mais marcante no duelo era a imagem bizarra do zagueiro do Flamengo, que quis ser goleiro e espalmou a bola, cometendo um penalti. No entanto, o pai correndo com o filho cadeirante no colo chocou o país todo.

A solução para que essas barbáries não aconteçam mais? O fim da torcida organizada. Não é a torcida única, medida implementada nos clássicos no estado de São Paulo.

Pessoas que participam de torcidas organizadas não são pessoas que vão ao estádio só para curtirem o momento, para ver um jogo de futebol. Esses “torcedores”  querem pertencer a uma massa e, para alguns, pouco importa o jogo que está acontecendo.

Como uma torcedora muito nervosinha, posso dizer que existem pessoas que se deixam levar pelo futebol, que ficam nervosas e sofrem de verdade. Mas essas pessoas não amam futebol ou seu time, são seres humanos violentos, sedentos por um conflito. Se a justificativa de “a torcida adversária” ser um gatilho para a violência, diferentes organizadas DO MESMO clube não brigariam entre si.

Abolir a torcida adversária em clássicos é similar a, em vez de educar homens para não assediarem mulheres, falar que elas devem parar de usar roupas curtas. Simplemente não faz sentido – você culpa a vítima, não o agressor.

A diversidade deve ser estimulada. Se o estádio fosse um lugar com múltiplas opiniões e sem extremistas, como os torcedores organizados, lá as crianças poderiam aprender a respeitar as diferenças, aprender que é normal torcer para um time diferente e que, na vida, um dia a gente ganha e no outro a gente perde.

Deixar as torcidas organizadas continuarem livres, continuar tratando-os como torcedores comuns – às vezes até privilegiados – é pedir para o estádio deixe de ser um espaço amistoso para levar as crianças. É pedir para que um São Paulo x Santos, Corinthians x Palmeiras, deixe de ser um espetáculo para ser sinônimo de briga.São as torcidas organizadas que devem deixar de existir, não a diversidade de gostos, opiniões e paixões.

Ao final do jogo, em entrevista ao SporTV, Fernando Prass foi questionado sobre o ocorrido e deu show de cidadania: colocou a situação dentro do estádio no mesmo patamar do estupro coletivo no Rio de Janeiro e da morte do menino de 10 anos pela Política Militar. Mostrou que futebol não é mero entretenimento, é pauta da sociedade e o que acontece dentro de um estádio é da conta de todo mundo, especialmente um caso como esse. 

Por jogadores como Prass, ainda é tempo de sonhar com, um dia, levar seus filhos ao estádio sem medo. Agora, se depender da FPF ou da CBF…

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