Após o fim da Guerra Fria, com os EUA no leme do triunfante barco do capitalismo e liberalismo mundial, o sociólogo Francis Fukuyama se permitiu a realizar um exercício de futurologia em vez de uma análise conjuntural do cenário global. Fukuyama disse em seu vaticínio que o fim da ameaça soviética e socialista, sintetizado na queda do Muro de Berlim, representava o “fim da história”, pois agora não havia mais modelos possíveis ao mundo a não ser a democracia liberal de modelo Ocidental, então a história enquanto um continuum temporal de lutas e disputas por modelos políticos e sociais diversos já não havia mais sentido de existir. Mais de 25 anos se passaram após o lançamento do livro O Fim da História e Seu Último Homem, e vemos que tal profecia não se concretizou.

          O que a realidade nos apresenta em 2016 não é um “consenso democrático-liberal” global, sim a continuidade das disputas por modelos divergentes que sempre marcaram a história. Temos uma Rússia que nega os preceitos do liberalismo político e social que abraça cada vez mais um modelo conservador próprio. A China comunista não dá sinais de se render a uma democracia de modelo Ocidental. O islamismo cresce não só como religião mas como movimento político com diversas facetas, o que demonstra o crescimento do Estado Islâmico, inclusive atraindo um considerável número de jovens do Ocidente para suas fileiras.

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          Porém, tal questionamento não se passa apenas fora das fronteiras do mundo Ocidental. Dentro do próprio Ocidente, o “consenso democrático-liberal” está em crise. Na Europa, existe o crescimento de uma extrema-direita que se define como anti-liberal e defende pautas anti-imigração (principalmente a islâmica), retorno de valores tradicionais e em muitos casos, contra minorias étnicas, sociais e de gênero. A Frente Nacional da França alcançou resultados expressivos, o Partido da Liberdade na Áustria ganhou o primeiro turno das eleições em Abril. Uma esquerda radical também cresce, e conquistou o governo da Grécia, que é governada por Tsípras do partido Syriza, e o Podemos, na Espanha, foi vitorioso em diversos municípios e ficou em segundo lugar nas eleições gerais. Nos EUA, a conquista da vaga de candidato do Partido Republicano pelo conservador Donald Trump (que tem como plataforma eleitoral ideias como construir um muro na fronteira com o México afim de impedir a imigração) a surpreendente performance do socialista Bernie Sanders do Partido Democrata e no Brasil, Jair Bolsonaro, são demonstrações do esgotamento global de tal consenso e o enfraquecimento das posições de centro -direita e esquerda.

          Dentre as diversas razões desse cansaço demonstrado no Ocidente, a principal delas é a decadência do establishment político que tem dominado tanto o cenário nesses últimos 30 anos. Com ligações amplas com empresas, setores importantes da mídia, esse establishment, após a queda do Muro de Berlim e a derrota do algoz comunista, foi capaz de manter uma agenda de um razoável consenso que aglutinava um centro moderado tanto da direita quanto da esquerda, conseguindo manter a hegemonia no campo político, econômico e cultural durante bastante tempo, marginalizando os extremos ideológicos, que sentiam os efeitos da derrota da Guerra Fria e dos governos ultra-nacionalistas do século XX, sejam eles na forma dos variados fascismos europeus ou das ditaduras militares latino-americanas. Porém, essa hegemonia cultural começa a se fragilizar com a popularização da internet, que possibilitou pessoas de diversos lugares diferentes se conectarem, e ideias até então praticamente banidas da mídia tradicional, que é aliada aos poderes constituídos, começam a se organizar e a emergir de sua forçada letargia pelo sufocamento dos remanescentes destes grupos. Desta forma, as redes passaram a ter um papel aglutinador fundamental desses grupos, que a partir dali se articularão.

          Apesar dos avanços sociais e de liberdade social alcançado pelo consenso liberal-democrático, a classe política dominante se demonstrou incapaz de resolver uma série de questões e desafios no século XXI. O terrorismo islâmico, a alta quantidade de imigração e a crise de 2008 contribuíram para que se questionasse o poder político. A crescente desigualdade e concentração de renda em diversos países, decorrentes da crise econômica e a desestabilização social causada pelo terror islâmico ajudou no crescimento dos extremos políticos, que a partir da organização virtual, irão concretizar ações práticas tais como o Occupy Wall Street e os diversos movimentos de mobilização social na Europa.

          Por diferentes razões, tais como a ineficiência da máquina pública e a corrupção endêmica, no Brasil em 2013 há um processo análogo, onde uma manifestação de esquerda inicialmente que desejava protestar contra o aumento de passagem, logo se torna um movimento de proporções nacionais contra “tudo o que está aí”, demonstrando uma insatisfação principalmente com o governo petista, mas que atingia em graus diferentes toda a classe política, vista como corrupta. Todos esses movimentos, que tem inspiração conservadora e liberal, igualmente começaram com uma mobilização virtual, escapando das tradicionais formas midiáticas de comunicação e difusão da informação, o que permitiu o surgimento de novas formas de se organizar para realizar ações políticas, o que enfraquece o poder de grupos com tradicional força de arregimentar pessoas para as suas causas – os sindicatos, partidos, grupos de classe e movimentos sociais. Foi através de mobilização virtual e com mínimo apoio das formas clássicas de midiatização, os grupos favoráveis ao impeachment da presidente Dilma Rousseff (MBL, Vem Pra Rua, Revoltados Online, entre outros) conseguiram realizar os dois maiores protestos da história do país: 15 de Março de 2015 e 13 de Março de 2016.

           Diante dessa nova forma de se organizar politicamente que as redes proporcionam, há de se fazer uma reflexão de como utilizá-las para superar o já carcomido establishment garantindo a ampliação da democracia e da participação política da população. Para isso, temos que compreender as origens da atual democracia representativa, que emerge durante o século XVIII, com as revoluções de caráter iluminista, destacando a Independência Norte-Americana e a Francesa. Essa forma de governo, onde elegemos alguém para nos representar aparece em um momento que surge um número considerável de pessoas letradas de diversas classes sociais, que já não mais se sentem representadas pela velha estruturação de mundo com origem feudal.

          Uma burguesia, que tem tanto ou mais poder financeiro e educacional do que a nobreza, não mais aceitará ser sujeita aos privilégios nobiliárquicos, e articulará as suas revoluções, que trouxeram consigo as ideias do mérito, da liberdade do indivíduo e de pensamento, bases do pensamento liberal, além da República, que tem como um dos princípios a participação dos cidadãos nas decisões política e a alternância de poder, não podendo alguém permanecer nele por muito tempo. Dada a complexidade da vida moderna e o apego à liberdade privada, era impossível os cidadãos deixarem de exercer seus interesses particulares em benefício da prática política cotidiana. Na democracia ateniense, que era direta, pois a principal função do cidadão era decidir ele próprio na Assembleia (Ágora) as principais questões da cidade, quem exercia o trabalho produtivo era o escravo, que por definição, não poderia ser cidadão. Já no mundo burguês que nasce, o cidadão é ao mesmo tempo um agente do mundo produtivo e econômico, o que lhe veta de se ocupar prioritariamente da vida política, pois é dele próprio que depende o seu sustento. Por isso mesmo, o exercício da democracia no mundo burguês, para poder existir, deve ser feita por representantes eleitos, que terão a função de só se ocupar dos afazeres políticos, que exercerão o poder em nome dos que o elegeram por um período determinado de tempo.

          Porém, um dos perigos da democracia representativa, como diz Benjamin Constant, é os indivíduos tomarem cuidado apenas de seus afazeres privados, achando que já cumpriram as suas responsabilidades enquanto cidadãos no ato da escolha dos representantes, se esquecendo dessa forma que o papel do cidadão também é fiscalizar os políticos que elegeram, para evitar eventuais abusos. Porém, nos dias de hoje, além dos políticos, o aparato midiático e econômico também são atores políticos e juntos se unem formando o establishment, e o cidadão, principalmente depois da Guerra Fria, onde para ele foi vendido a ideia de “fim da história”, não via mais inimigos a combater e entregou sem reservas à vida privada. A exposição a olho nu dos erros, corrupção e desvios de finalidade do aparato político estão o pondo em nítida agonia sem ter um modelo que o substitua. O descompasso do tempo político tradicional, que se movimenta no tempo dos ritos pré-velocidade da rápida comunicação permitida pela Web, tornam também tal modelo obsoleto, fazendo com que não responda mais aos anseios de representação da modernidade e nem às necessidades de decisões rápidas (confundidas com eficiência) em que a sociedade conectada e informatizada demanda.

          A internet pode ser um veículo capaz de solucionar grande parte desses problemas de representação e eficiência. É possível que um número cada vez maior de decisões possa partir dos próprios cidadãos se utilizando da Web, pois não há a necessidade de estar todos em um lugar determinado fisicamente para ser capaz de votar em uma pauta, ouvir, asssitir ou discutir alguma questão de interesse público. Basta ter um computador ou um celular que de onde estiver, será capaz de interagir. Dessa forma, há a possibilidade de haver uma maior e plural participação popular. A fiscalização do governante também fica facilitada, pois o governante, em um mundo onde há sempre uma câmera ou a possibilidade de gravar áudios em um celular e compartilhar tais dados na Web, além de poder acessar dados amplos e complexos com um clique de dedo ou mouse, facilita o controle público sobre a ação dos políticos profissionais, o que diminui a margem para haver corrupção e atos comprometedores. Mais do que isso. A internet permite a mescla da democracia representativa com a ampliação da participação direta dos cidadãos, facilitando a sua função cívica de fiscalizar o poder. Repensar a nossa democracia e os seus mecanismos de atuação se faz urgente, até para a própria manutenção das nossas liberdades, afim de não sermos tragados por discursos aventureiros. E a internet, neste mundo contemporâneo, é a chave para essa revolução sistêmica dentro da democracia para refiná-la, ampliá-la e melhorá-la.

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