Por Alex Tajra

Há exatos quinze anos os franceses assistiam atordoados a ascensão do político ultranacionalista Jean-Marie Le Pen, conhecido e alçado à popularidade por seu antissemitismo e suas declarações intolerantes. A Europa vivia novamente, sessenta anos depois da queda do nazi-fascismo, a real possibilidade de ter um de seus bastiões governados por um candidato da extrema-direita. A História acabou jogando água no champagne de Le Pen, e uma grande coalização entre eleitores de todas as vertentes ideológicas ajudou Jacques Chirac, oriundo da direita gaullista, a levar o pleito com certa folga.

Em pouco mais de uma década o Frente Nacional, partido pelo qual concorreu seu fundador Le Pen, sofreu uma série de metamorfoses a fim de limpar o encardido intolerante que se impregnou e aproximar-se da realidade política francesa. A transformação chegou em seu clímax em meados de 2015, quando Jean Marie, após uma série de entrevistas explicitando o que há de mais sádico em seu pensamento, foi expulso do partido que ajudou a criar e dirigiu por 40 anos. Entre as palavras proferidas, Le Pen fez chacota das câmaras de gás utilizadas no Holocausto e disse que era preciso “salvar a Europa boreal e o mundo branco”.

Apesar de ter ficado furioso e acusado a própria filha, Marine Le Pen, de “deslealdade” e “traição”, difícil não enxergar o pragmatismo da decisão: a expulsão do pai criador se deu muito mais em função da aproximação do partido para com as classes populares do que por afinidade ideológica. Marine, como amplamente divulgado, divaga sobre os massacres cometidos pelo regime nazista e trata com displicência o assunto (durante a campanha deste ano, Le Pen negou a responsabilidade da França na captura de judeus para o nazismo e ainda exaltou o passado colonial do país).

Coincidência ou não, a decisão de Marine de expulsar seu progenitor do partido se deu paralelamente a um crescimento nunca antes visto da Frente Nacional. Com apenas três cadeiras conquistadas no Parlamento Europeu nas eleições de 2009, o partido viu esse número saltar para 24 em maio de 2014, quando angariou mais de um quarto dos votos dos franceses. No final de 2015, a agremiação atingiu números consideráveis no primeiro turno das eleições regionais, ficando com 28% dos votos e liderando seis das 13 regiões da França.

A chegada de Le Pen ao segundo turno da eleição presidencial, portanto, nada tem de súbita; seu crescimento era tão previsível quanto a derrocada do atual mandatário François Hollande, que rasgou seu plano de governo e impôs goela abaixo dos franceses uma série de medidas de austeridade. Esses dois fatores, aliás, só podem ser pensados em conjunto, posto que é consenso que a crise econômica, impulsionada por reformas e cortes de gastos governamentais, propicia um terreno frutuário para o crescimento da extrema direita e sua retórica reducionista.

Dessa forma o banqueiro Emmanuel Macron, o Chirac versão 2017, paradoxalmente contribuiu para o crescimento exponencial de sua própria adversária. Oriundo do mundo corporativo, contribuiu com o governo Hollande em dois momentos: primeiro como secretário-geral adjunto da Presidência, depois como Ministro da Economia. Como planejador fiscal do Estado, ficou conhecido por implantar a reforma trabalhista que enraiveceu quase que toda a sociedade francesa.

Entusiasta da ala liberal do Partido Socialista – com uma forte tendência ao empresariado -, sócio e ex-executivo do Banco Rothschild, Macron se desentendeu com a sigla e fundou sua própria , a Em Marcha!. Envernizado como progressista, o novo partido sustenta ideias pró-mercado e, em relação às pautas mais espinhosas, como a permanência na União Europeia, se sustenta em cima do muro como pode: “nem pró-europeu, nem eurocético e nem federalista”, disse certa vez Macron – Le Pen já afirmou que pretende começar um processo de retirada da UE caso seja eleita.

Impossível dissociar o crescimento da extrema-direita na França dos recentes atos terroristas cometidos no país. É redundante mostrar a equação que leva boa parte dos franceses a sentir ódio e nada mais pelos imigrantes, mas as coisas podem piorar. Le Pen não só usa e abusa da xenofobia para alimentar seus argumentos ordinários como insufla a violência civil. Não que Macron seja exatamente um entusiasta da imigração, mas se mostrou menos bélico que sua adversária no assunto.

A disputa entre Macron e Le Pen ainda carrega um fator histórico pouco mencionado até aqui. Jean Marie foi da Legião Estrangeira e ainda combateu os vietcongues. Lutou contra os argelinos que clamavam por independência, e carrega uma simbólica ligação com a OAS (Organisation Armée Secrète – Organização do Exército Secreto), milícia clandestina que se opunha a liberação do país africano. Durante os anos 1960 a OAS organizava atentados contra pensões onde viviam os argelinos e tentou, sem sucesso, assassinar o então presidente Charles de Gaulle – agora representado politicamente por Emmanuel Macron (o candidato vem se comparando a todo momento ao general francês, proferindo inclusive a emblemática: “como De Gaulle, escolho o melhor da esquerda, o melhor da direita e o melhor do centro”).

Fato é que quem vencer o pleito deste domingo terá de se saracotear politicamente para conseguir governar o país. A Frente Nacional de Le Pen conta com apenas três cadeiras no Parlamento francês, que abriga 348 senadores e 577 deputados. Macron não possui nenhuma, embora insista no discurso de que seu partido vai lançar candidatos em todos os distritos. Para atingir a chamada “governabilidade” o presidente pode se tornar uma figura ilustrativa e pouco decisiva no cenário político do país.

As pesquisas divulgadas durante a semana mostram que Macron terá em torno de 60% a 64% dos votos, muitos deles puxados pelos eleitores do Partido Socialista e do França Insubmissa, partido de esquerda recém fundado por Jean-Luc Melenchón. Le Pen obteve certo avanço nos últimos dias, mas a rejeição às suas ideias proto fascistas parece estar ditando os rumos da eleição. Ainda assim todo o cuidado é pouco com as pesquisas eleitorais, afinal, 99 de 100 jornais estadunidenses cravaram a eleição de Hillary Clinton na eleição do ano passado. O resultado todos já sabem.

Le Pen e seus correspondentes mundo afora

O crescimento de uma extrema-direita socialmente xenófoba, moralmente intolerante e economicamente protecionista não é apanágio da França, muito menos do continente europeu. A vitória de Donald Trump, guardadas as devidas proporções e diferenças de cada contexto político, é sintomática e explica muito sobre a escalada de Macron e Marine Le Pen. O establishment neoliberal mais uma vez bate de frente com o protecionismo “antissistema” e “antiglobalização”.

Os Estados Unidos amargam uma gama de problemas econômicos e as angústias dos trabalhadores parecem estar cada vez mais distantes dos liberais do Partido Democrata. Não é casualidade que o chamado Cinturão da Ferrugem (região dos EUA que engloba estados industriais como Michigan, Pensilvânia, Ohio e Wisconsin) foi um dos grandes responsáveis pela chegada de Trump ao poder. A força da classe trabalhadora branca, praticamente ignorada nos oito anos de governo Obama, se mostrou imprescindível para a vitória do republicano.

Le Pen e Trump, no entanto, divergem num ponto crucial. Outsider, o ex-apresentador do programa O Aprendiz nunca havia exercido um cargo público e vem mostrando pouca maleabilidade em suas decisões – clara consequência de sua aptidão nula para negociações. As duas derrotas acachapantes que sofreu na Suprema Corte em relação aos seus “decretos anti-imigração” são reflexos de sua inabilidade na práxis política.

A herdeira da Frente Nacional seguiu o caminho diametralmente oposto. Começou a acompanhar o pai em campanhas aos 13 anos, e em 1998 foi eleita para seu primeiro cargo público como conselheira regional de Nord-Pas-de-Calais. Em 2004 conseguiu uma cadeira no Parlamento Europeu e foi reeleita em 2009. Esse é o perigo iminente. Le Pen não é uma aventureira como Donald Trump ou João Doria, e sim uma atuante concreta no sistema francês, com um estofo político que pode realmente levar a cabo suas propostas extremistas.

Ao Sul do continente americano também é possível observar os revérberos da crise econômica sob a perspectiva eleitoral. Não à toa que, de forma sincrônica, Marine Le Pen tenha passado para o segundo turno das eleições e Jair Bolsonaro disparado nas pesquisas de intenção de voto no pleito de 2018 no Brasil. Como na França, as reformas determinadas pelo governo Temer vêm gerando um grande descontentamento na classe trabalhadora, esta jogada ao léu nos últimos anos pela grande agremiação de esquerda no País – ironicamente, o Partido dos Trabalhadores (PT) fortaleceu mais os empresários e começou timidamente o plano de austeridade agora aplicado de forma brutal.

A descrença nos partidos tradicionais – PSDB e PMDB vivem uma situação até mais grave que a do PT – motiva os grandes prejudicados pela crise, pobres e trabalhadores, a correrem atrás de respostas simples para problemas complexos. É exatamente nesta onda que surfa Bolsonaro. O deputado sabe que suas frases pré-fabricadas, permeadas de clichês violentos e pouco substanciais, surtem efeito na população, que, desamparada por uma derrocada econômica sem precedentes, abraça o discurso de ódio como forma de salvação de sua própria sanidade – e de seu emprego.

Com suas palavras virulentas, tão determinadas quanto desprovidas de racionalidade, Bolsonaro conseguiu até importar dogmas intolerantes da Europa, dando voz a uma minoria lerdaça que brada contra imigrantes, índios e quilombolas. Numa dessas manifestações, imigrantes árabes foram insultados e agredidos em plena Avenida Paulista por membros de um grupo chamado Direita São Paulo, alguns destes trajando camisetas com o rosto do deputado.

O debate em torno da ascensão da extrema-direita é cada vez mais fundamental. A crise de 2008 que abalou os principais sistemas financeiros e afundou o neoliberalismo gera sua prole quase dez anos depois, e ela quer atingir o poder de qualquer forma. A França é mais um experimento nesse mundo pós-falência: que será menos pior, permanecer sob a ditadura do capital financeiro ou apostar em um regime intolerante e permeado pelo ódio? Resultados à parte, a extrema-direita já saiu vencedora nessa eleição e o fascismo está de volta ao pódio na França. 

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