A melhor série de todos os tempos? Fácil: Community. Lembra, Community, aquela série de comédia que passou entre 2009 – 2015 sobre um grupo de estudos formado pelos mais variados exemplos de pessoas estranhas que nunca seriam amigos mas agora estão juntos para enfrentar todos os desafios de uma faculdade comunitária e tal.

Se você não conhece – termina logo isso aqui e vá ver o quanto antes! – você deve estar estranhando: uma série com uma sinopse tão banal como esta ser a “melhor de todos os tempos”? Mas quem conhece sabe muito bem porque ela pode, facilmente, ocupar esse posto para muitos fãs de séries e cultura pop em geral. Então, vamos passear pelos principais pontos que justificam esse título para Community e depois correr para nossos quartos para matar a saudade da série com uma maratona de 48h direto de Greendale.

Antes de qualquer coisa, personagem. É muito fácil, para uma série de comédia, pegar personagens planos e desgastá-los, até o insuportável, com seus bordões, piadas prontas e situações previsíveis – lembra do Sheldon de The Big Bang Theory ou Alan em Two and a Half Men? Mas Community era diferente, os personagens evoluíam com o decorrer das temporadas e a série não tinha medo de explorar os lados menos engraçados de cada um deles. Sendo assim, cada piada e situação cômica na qual estes personagens estavam inseridos tinham um ar de verossimilhança e integridade que dava mais vida e humanidade para aquele universo ficcional. Seja com o ar de anti-herói falido do Jeff, o “self hate” da Britta, o “sociopatismo metalinguístico” do Abed, a mãe solteira vítima de um casamento falido da Shirley, a auto-cobrança doentia da Annie, o racismo e preconceito do Pierce ou descobrimento da maturidade do Troy, a série ia fundo com seus personagens em uma abordagem muito eficaz para um formato de 22 minutos por episódio.

Um exemplo disso é o próprio arco do Jeff, o protagonista, que percorre todas as temporadas. No início ele é um advogado charlatão que manipula pessoas para atingir os seus próprios objetivos. Porém, no decorrer das temporadas, seu comportamento rígido e egoísta vai amolecendo de acordo com a sua vivência com o “study group”. E, tudo isso, sem ele perder os traços mais definitivos da sua personalidade narcisista. Sendo assim, o Jeff demonstra – junto com os demais personagens – um nível de complexidade acima da média para as séries cômicas dos canais abertos da TV americana, demonstrando a escrita excepcional que Community oferecia.

E, agora, tocamos no ponto mais forte da série: o roteiro. A escrita de Community era inteligente, confiante e sem medo de ultrapassar limites. A série tinha um conhecimento tão profundo de “storytelling” e estrutura narrativa que, sem muito esforço, ela conseguia explorar todo tipo de gênero e subgênero que você possa imaginar. Tipo, em qual outra série você vai encontrar um episódio inteiro onde uma guerra de paintball dominou todo o campus e serve como um “homage” para filmes de ação e aventura? Ou um episódio onde todo mundo vira zumbi no Halloween? Ou um episódio-documentário que acompanha a grande batalha de travesseiros por toda a faculdade? Ou quando eles lançam um dado e criam 7 realidades alternativas? Ou ou… meu, são tantos exemplos que já estou com vontade de rever tudo.

E o melhor, a série não fazia isso apenas para mostrar a sua capacidade de quebrar regras. Community explorava as situações absurdas que criava para contar uma história maior com seus personagens, evoluindo, aos poucos, a mitologia e as pessoas que ocupam aquele lindo universo. Sendo assim, por mais louco que seja um episódio de Community, esta “loucura” faz todo o sentido quando praticada naquela faculdade, com aqueles personagens. Para dar um gostinho, clique aqui pra ver uma lista com os melhores episódios de Community.

Mas, se você ainda não está convencido que Community é a melhor série de todos os tempos, com seus personagens complexos e multifacetados apresentados em um roteiro de qualidade fora da curva, então vamos nos manter na simplicidade: a série era engraçada por demais.  

Com seu humor estranho e, às vezes, idiossincrático, a qualidade cômica de Community também era fora da curva. Piadas inteligentes, piadas idiotas, situações absurdas e, principalmente, o humor referencial (ou piada metalinguística – ou até mesmo “meta-piada”), a série demonstrava o seu viés cômico sem forçar a barra e com o tempero próprio que apenas Community tinha. Sem falar que a série se conhecia bem demais, colocando as piadas certas na boca dos personagens certos na hora certa.

De novo, só pra dar um gostinho, fica aí essa compilação com os melhores momentos da melhor dupla da TV: Troy e Abed

Enfim, Community era uma série honesta, engraçada e extremamente bem feita. Infelizmente, ela cambaleou, durante toda a sua existência, com audiência e interesses monetários de estúdios, fazendo com que ela fosse cancelada na quinta temporada e, depois, revivida para uma final sexta temporada em 2015. No entanto, mesmo com esses problemas, todo o fã que acompanhou a série sentiu-se especial e feliz por ver de perto todas as aventuras que o “study group” passou durante 6 anos.

E pra finalizar, deixo aqui as palavras metalinguísticas de Abed sobre o verdadeiro propósito de uma série de TV:  

 “It’s TV. It’s comfort. It’s a friend you’ve known so well and for so long, you just let it be with you.”

 

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