Paulistano há 27 carnavais, me tornei ciclista há algo como 10 anos. Desde então, essa experiência de transporte tem sido uma constante em minha vida na cidade: há uma década, a bicicleta é, de fato, meu meio de locomoção.

            Considerando o período (Haddad foi eleito quando eu já tinha lá uns 6 anos de ciclismo diário), posso dizer que assisti em primeira mão, de camarote e com direito a ponta de coadjuvante a todo as transformações e debates que aconteceram em nossa cidade nos últimos 4 anos. Dessa experiência, gostaria de destacar alguns aspectos.

            1) O alto custo da ciclovia é mais político, do que financeiro. Fazer uma ciclovia, como qualquer outra obra pública, custa dinheiro. E no Brasil, onde sabemos que os modelos de licitações públicas não são os mais rentáveis, as cifras milionárias pagas às empresas responsáveis pelos serviços podem assustar. Cabe ao Ministério Público ficar de olho como em qualquer outra obra pública passível de superfaturamento. A questão é que temos um equipamento público novo disponível e nossos impostos são para isso mesmo.

            O que saiu caro em tudo isso é o custo político para Haddad: em uma cidade conservadora e antiquada em suas perspectivas de mobilidade urbana, entregar ciclovias – por mais inovador que seja – não pega tão bem quanto construir mais uma ponte bizantina de concreto armado sobre algum rio morto. E Haddad paga com impopularidade.

            2) O ódio contra o ciclista parece diminuir. Quando comecei a andar de bike em São Paulo, o ódio carrocrata contra o ciclista era expresso em sua forma mais agressiva e banal: a fina educativa seguida de agressões verbais. Quem chegou pedalar por aí antes da ciclovia, certamente vai se lembrar que ter a vida ameaçada e menosprezada por concidadãos anônimos era algo COTIDIANO, parte do dia a dia, como tomar café pela manhã ou dormir ao fim do dia.

            Inicialmente, a construção da ciclovia parece ter acrescido à aversão pelos ciclistas; esse ódio, dessa vez, era alimentado pela mídia conservadora que insistia em desqualificar o trabalho do prefeito Haddad, o prefeito “Suvinil”. Mas com o ciclista segregado, o que restou aos mais chateados foi – cada vez mais – cobrar que a gente não furasse o semáforo, não andasse pela calçada ou na contramão, coisas assim. (O que, aliás, me parece legítimo.) A fina ainda existe, mas só quando possível. De qualquer forma, parece que o calor da paixão anticiclística está diminuindo: a bike está virando algo normal, se não nos hábitos (o número de ciclistas dobrou), pelos menos aos olhos da maioria dos paulistanos.

            3) Ilhas gourmet de um transporte popular. Uma das coisas que o eleitorado deve esperar de um prefeito é que – além de ser um gestor de recursos – ele leve a população da cidade a repensar a própria vida como sociedade vivendo politicamente em um determinado espaço. Não se pode negar que Haddad, com suas ciclovias, criou esse movimento de debate, controvérsias e reflexão. Associada a um movimento por qualidade de vida, a bicicleta encheu anúncios publicitários, lojas de departamento e até parkings de comida gourmet. Ser ciclista ficou bonito na foto e eles estão em todas.

               Eles não existiam antes? O ciclista sempre esteve por aí, mas era invisível no pior sentido do termo: ele podia ser atravessado como um fantasma. Agora, sendo um espalhafatoso ciclista da zona oeste, um senhor que aluga uma bike do Itau no fim de semana ou um dos trocentos entregadores do centro, ele tem um espaço para não negociar mais sua vida com os carros. E as mortes diminuíram em 47%.


                As ciclovias não foram feitas com a perfeição sueca que muitos paulistanos (cinicamente) exigem: há buracos; o trânsito perto de bocas de lobo é difícil; elas estão, muitas vezes, em lugar trocado com corredores de ônibus; a segregação não é totalmente segura e coisas do tipo. Mas me mostre um, UM ciclista das antigas reclamando delas! Reclamar, cabe lembrar, é diferente de fazer crítica. Quem faz crítica, quer a melhora de algo. É o que um bom eleitor e cidadão e (e cicloativista) faz.

                 De qualquer forma, da perspectiva de um ciclista, a construção das ciclovias foi um ganho inestimável pelo qual muitos agradecerão com voto. E para que não haja dúvidas, eu serei um deles – por vários outros motivos.

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