I.            

             Em 13 janeiro de 2015, o El País Brasil colocou no ar um artigo de Jaime Rubio Hancock sobre a questão “Porque nos mobilizamos pela França, mas nos esquecemos da Nigéria?”. O objetivo era tentar lançar alguma luz sobre uma questão cada vez mais familiar a nós, que não saímos mais de redes sociais: que lógica opera por trás da comoção com certos eventos (no caso, o atentado contra o Charlie Hebdo) e do esquecimento de outros (como os atentados feitos pelo Boko Haram, na Nigéria)?

             O leitor que espera de cara uma listagem extensa de motivos profundos para sua indignação e apatia logo se frustra. O artigo apresenta dois tópicos que não chegam nem perto de convencer e que parecem mais justificar o funcionamento seletivo da mídia (trata-se do El País, afinal), do que problematizá-lo. Os dois tópicos são 1) a proximidade e 2) a qualidade de informação.

            1) Segundo Rubio, nós nos interessamos mais pelo que acontece em nosso país ou em países vizinhos. Uma olhadela para a realidade e veremos que o argumento não procede. Muitas vezes, as pessoas se interessam mais pelo que está distante do que perto; a comoção segue uma lógica de identificação mais complexa, do que a de proximidade geográfica. Basta colocarmos em perspectiva a atenção dada a aos atentados na França em paralelo com a repercussão do rompimento da barragem de Mariana. E mais: será que o Le Monde ou a TV5 noticiaram avidamente nossos incêndios em favelas e chacinas? É de se pensar…

            2) As pessoas se voltam mais a essas notícias pela qualidade da informação que podem obter. Essa visão é linda, mas inverossímil. O grosso das pessoas se agarra ao que busca previamente ou ao que é induzido a se agarrar. Não à toa, as pessoas preferem um lixo de opinião que combine com o sofá de casa a certa medida de profundidade que coloque em má-disposição sua própria auto-representação. Basta, a título de exemplo, lembrarmos quais são a revista impressa de maior circulação, o blog mais acessado e o canal de televisão mais importante do Brasil.

 

II.

            Discordo dessa leitura. Para mim, o que faz a mídia se voltar a certas tragédias (ou não) e plantar (ou não) comoção nos corações, é uma lógica de identificação que joga com os afetos de seus consumidores. Para além da “proximidade” ou “qualidade”, eu colocaria a coisa em outras chaves.

            1) Desejo de participar da constelação de problemas do “primeiro mundo”. Uma variação do chamado complexo de vira-latas. Colocar a bandeira da França sobre sua foto no facebook é como assistir ao Manhattan Connection para investigar os velhos problemas do Brasil: diz muito sobre o desejo daquilo que queremos ser, deslocando-nos de nossa realidade miserável – por uma representação de pertença – para o universo rico e sofisticado dos “manda-chuvas”. Auto-representação fantasiosa. Que se solucione esta contradição: muitos dos mandantes de atentados eram franceses de verdade, diferente dos brasileiros que ostentaram as cores da liberté, égalité, fraternité.

            2) “Nós” X “nossos inimigos”. Nossas identificações políticas são construídas, entre outras coisas, pela diferenciação entre “nós” e “nossos inimigos”. Quando dizemos que somos como os franceses mortos, subentende-se também que compartilhamos os mesmos antagonismos reais e imaginários que eles. O problema é que quanto mais simplista é o mecanismo de identificação, mais suscetível a instrumentalizações ele se torna. Imagine-se um sujeitinho nacionalista que deseja intimamente que terroristas ataquem o Parque Olímpico para que ele participe das lutas do “mundo ocidental”, enquanto negociam no Congresso Nacional o fim de seus direitos trabalhistas para atrair algumas multinacionais americanas, francesas e alemãs. Ele é capaz de dar mais atenção a suas fantasias do que a seus interesses reais, porque discerniu fantasiosamente seus antagonistas. A lógica da comoção diz muito sobre esses desejos.

            3) Vidas de valor X vidas sem valor. Damos mais valor a algumas vidas e nenhum a outras e isso não segue nenhum critério de “proximidade”. O crivo é ideológico e identitário. Numa primeira visão, simplista, a vida que valorizamos é a vida que é como a nossa: a branca para um racista; a rica para um rico; a “ocidental” para um “ocidental” e assim por diante. Mas, indo mais além, vimos que a identificação segue uma lógica do desejo. Com quem um indivíduo de classe média irá se identificar, se comover e, consequentemente, quem irá esquecer e repudiar. Pelas ameaças da realidade, ele com certeza pode chegar mais rápido à condição do mendigo em sua porta do que da Kardashian em sua televisão. Seus medos e ideais – de classe, sexo, nacionalidade, etc – estruturam sua consciência e colocam o preço que supostamente vale cada coisa e cada um.

 

III.

            É muito difícil não sonharmos e chorarmos os sonhos e as dores dos outros. Essa capacidade é estruturante de nossa forma de ser, de nos colocarmos no mundo. Se ela fosse inconsequente, nossos problemas seriam nulos ou pequenos. Entretanto, o potencial de instrumentalização dessas identidades dadas ou pré-concebidas é enorme. Sem identificação, não há política no melhor sentido do termo, pois anula-se a possibilidade de solidariedade. Mas constituir uma identidade assumindo de forma sincera o lugar que nós ocupamos (não aquele gostaríamos de ocupar) no mundo é uma tarefa inquietante o bastante para que a maioria se esquive. Tarefa árdua e inquietante, mas imprescindível para quem quer ir além de uma consciência ética de fachada.

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