Ter 35 anos no ano 17 do século XXI me faz lembrar dos poucos progressos que a humanidade teve após tantos retrocessos cíclicos que venho acompanhando desde 1989 quando eu realmente tive mais noção de realidade e comecei a perceber o mundo. Certamente até os 7 anos eu vivi como um animal reativo e indiferente ao redor e talvez, como qualquer pessoa, comecei a perceber primeiro o que me parecia diferente e por isso, considerava errado.

Eu fui educado a interpretar assim mesmo: tudo que não se parecia com o que me ensinaram era errado, culposo e pecado.

Claro que eu era só um pirralho, mas eram adultos me ensinando que existia gente que nascia errada sem ter feito nada de errado, culpados sem terem cometido nenhum crime e pecadores mesmo agindo como Jesus ensinou. Certamente essas dúvidas e incoerências me tornaram ateu aos 13 após fazer catecismo, mas eu ainda era ideologicamente machista e tudo que me ensinaram ainda prevalecia na minha cabeça, a única referência que eu tinha sobre como lidar com as mulheres.

Sim, as mulheres eram consideradas erradas por mim, culpadas e pecadoras, assim como Jesus não me ensinou, mas seus seguidores covardes, preconceituosos e influentes, em sua maioria, mulheres adultas, ensinaram.

Ensinaram que mulher tem que “se dar ao respeito”, “não pode xingar”, “não pode deixar o cabelo curto ou vira sapatão” (sic), não pode fazer outro esporte senão vôlei, não pode ter brinquedos que não sejam treinos para serem escravas domésticas e/ou “mães solteiras” visto que não havia menino brincando de casinha, senão virava “mariquinha”.

Me falaram que homem não chora, não podia jogar vôlei senão virava menina e que brincar de casinha era outra atividade alteradora de gênero e quando questionei aos adultos “por quê a Roberta Close pagou milhões de cruzados pra trocar de sexo, se podia simplesmente virar mulher brincando com uma Barbie”, só recebi um clássico “esse menino diz cada coisa” como argumento.

Sem perceber eu cresci como um fiscal babaca do machismo, falando “isso não é coisa de menina” para muitas coleguinhas de escola, único lugar que convivia com o diferente naquela época e muitas se encolhiam, outras reclamavam e poucas me xingavam, daí conheci outro termo: “essa não serve para casar”. Sempre havia um discurso pronto para quem não se enquadrava no meu senso idealizado de justiça e quando faltava, os adulto me davam o (péssimo) exemplo a ser seguido. Até chegar na adolescência.

Nesse período, quando o gênero oposto começava a despertar reações hormonais contrárias de antigamente, eu percebi que precisaria mudar minha postura mas a úncia referência que eu tinha era de ser paquerador babaca mas eu não tinha nem corpo nem bens materiais pra agir como os pegadores de porta de escola, então não sobrou outra alternativa senão criticar as mulheres por gostarem desse tipo de cara malandro.

Percebam, o trabalho de fiscal do machismo ungido em nome da justiça era em período integral e culpar as mulheres quando não faziam o que eu desejava era perfeito e o apoio dos colegas legitimava minha postura como correta. Quantas meninas adolescentes se submetiam à namoros abusivos ainda tão novas?

Acho que a única “lei do machão” que existia para proteger as garotas era “em mulher não se bate”, não vindo de educação doméstica mas de filmes e o seriado do Chaves. Lógico que a “brecha nessa lei” era “vai saber o que a menina fez”.

Passado tanto tempo e aprendendo sobre política, história e religião aprendi toda a trajetória da luta das mulheres por igualdade e as origens da cultura machista em nossa sociedade e, sabendo do mal que carregava, simplesmente abri mão desse trabalho de “fiscal da burrice” e percebi que a mulher que conheci na infância havia morrido. A menina que só podia gostar de uma cor, não podia ver desenhos japoneses de luta ou jogar videogame havia sido sepultada e estava vivendo sem se esconder dos olhares hipócritas dos “cidadãos de bem” que haviam condenado tantas e tantas a ocultar seus gostos e viver uma mentira diariamente.

Essa mulher que conheci morreu. Morreu dentro da minha cabeça pois elas estão experimentando o gosto da liberdade gradativamente e cada vez mais vivas, arrojadas e felizes.

Percebi que graças aos ensinamentos preconceituosos que me passaram como corretos perdi amigas para jogar bola, jogar videogame, falar sobre Jiban e Flash Men ou jogos de tabuleiro mas fico feliz em saber que elas resistiram apesar dos outros “fiscais” e de mim, que consegui mudar a tempo e recomendo essa mudança para todos os homens e mulheres que ainda são “fiscais do machismo”.

Infelizmente o machismo é um discurso criado por homens covardes e sustentado por mulheres submissas que repassam esses “valores morais e cívicos” para seus filhos, pois o machista não educa filho. Por isso o movimento feminista ideológico é tão importante pois empodera e une as mulheres para terem consciência de sua posição na estrutura social e vital importância como figura de amor e empatia.

As mulheres não têm nada a perder senão os grilhões que as prendem.

Mulheres do mundo todo, uni-vos! (familiar, não?)

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