“Quem poderia deixar de tremer ao pensar nos males que pode causar uma ligação perigosa? E quantos males não poderiam ser evitadas se meditássemos sobre esta verdade!”. Em seu clássico Les Liaisons Dangereuses (As Ligações Perigosas, 1782), o escritor francês Chordelos de Laclos desenha uma trama na qual são exploradas a malicia e vingança humanas dentro de uma elite abastada e hipócrita. No fim, um jogo cruel termina em tragédia e infortúnio para os personagens envolvidos. 

Curiosamente, séculos depois, a França será cenário de uma competição que pode consolidar uma ligação mais do que perigosa na sociedade contemporânea. Os players desta vez, porém, não são nobres disputando por vaidade e orgulho, mas figuras envolvidas em uma batalha de ideologias que promete estremecer ainda mais o equilíbrio do mundo. Para os distantes, pode parecer exagero se referir às eleições presidências da França com tanta ênfase, mas o que ocorrer lá terá efeitos profundos e muito provavelmente irreversíveis para toda a humanidade. O que está na balança não é apenas quem será o novo líder do país europeu, e sim como tal pessoa irá rescrever os rumos da história recente.

No dia 23 de abril, os franceses escolherão os candidatos que desejam ver como presidente da nação. Em maio, a palavra final será dada e a França terá um novo chefe de estado. Atualmente, a candidata considerada favorita para ganhar o primeiro turno é a líder da ultradireitista Frente Nacional, Marine Le Pen, aparecendo com mais de 25% das intenções de votos nas pesquisas. Entretanto, as sondagens também indicam que não importa com quem concorra, Le Pen será derrotada no segundo turno.

Um alento? Poderia ser, se acontecimentos recentes que desafiaram todas as expectativas e deixaram especialistas em estado de descrédito não tivessem se concretizado. Nos Estados Unidos, os dados coletados pelo The Huffington Post davam à candidata democrata Hillary Clinton 98% de chance de vitória nas urnas. No Reino Unido, o primeiro-ministro David Cameron já possuía um plano estruturado para quando o voto pela permanência do país na União Europeia fosse vitorioso.

O universo então decidiu quebrar todos os padrões e um verdadeiro terremoto se espalhou pelo planeta, que assistiu estupefato enquanto o radicalismo prevaleceu em ambos os casos. Por tal motivo, todas as certezas sobre a eleição na França foram para o espaço e o estabelecimento político se perdeu em um labirinto de medo e insegurança. Em outras palavras: uma vitória de Marine Le Pen tornou-se algo bastante possível.

Considerando as posições de Le Pen, que possui um discurso xenófobo e contra o multiculturalismo, é altamente preocupante que tal perspectiva possa existir. Ela é uma oponente feroz da União Europeia e já deixou clara sua intenção de retirar a França do bloco. A líder da Frente Nacional já foi inclusive processada por incitação ao ódio – em um discurso na cidade de Lyon, a candidata comparou rezas muçulmanas realizadas em ruas a uma ocupação nazista. Diversos líderes muçulmanos apontam Le Pen como uma das grandes responsáveis pelo aumento da islamofobia na França.

Outro presidenciável que construiu sua campanha com declarações preconceituosas e absurdas, Donald Trump, parecia estar em uma estrada certa ao fracasso. Hoje, ele senta na cadeira mais poderosa do mundo e já adotou uma série de medidas que estão fraturando a ordem global.

A ascensão desses movimentos da extrema-direita significa então que a humanidade está cada vez mais intolerante? Em parte, mas existe outro aspecto que precisa ser levado em consideração. Outro político norte-americano teve uma campanha extremamente bem sucedida que também chacoalhou uma série de convicções pré-estabelecidas, com posicionamentos no extremo oposto dos apresentados por Trump: o senador de Vermont, Bernie Sanders. A própria Marine Le Pen expressou em uma entrevista à rede britânica BBC que o sucesso de Sanders fazia parte da revolta da população que se percebe atualmente.

Mas que revolta é essa? A revolta contra o establishment político, que há anos não supre mais os anseios do povo. O que acontece é que depois de anos de governos de esquerdas e direitas, uma quantidade expressiva de pessoas se sentem abandonadas pelos governos, que prometeram e prometeram, mas na hora da verdade, cederam aos interesses do mercado, do capital, de forças quase etéreas, negligenciando aqueles que os colocaram lá para começo de conversa. Isso gerou uma insatisfação na população, que vem buscando formas alternativas de política, algo que chegue como um martelo e estilhace as velhas concepções e dê espaço a algo novo, o que pode ser percebido em uma série de manifestações populares em diversas países, como, por exemplo, as que tomaram o Brasil em 2013 e que criticaram amplamente o sistema político nacional.

Então não, nem todos estão mais intolerantes. Mas muitos estão desesperados por alguma novidade, e estão sendo manipulados por aqueles que incitam o ódio e apresentam uma série de soluções fáceis, com propostas nacionalistas e extremistas.

Não se engane, a extrema-direita não é uma novidade. Durante décadas ela assistiu quieta enquanto a direita e esquerda se desvirtuavam e se desmantelavam em um jogo de poder sem fim, esperando sua oportunidade para voltar ao protagonismo de fininho por alguma porta dos fundos esquecida ou se esgueirando em algum buraco escondido. Que surpresa ela teve então quando o sistema, vítima de sua estupidez e de sua auto-deterioração, abriu os portões da frente, quase fazendo um convite casual para que forças reacionárias que prometem retornar a humanidade ao período paleozoico retornassem ao centro das atenções.

Por isso a eleição na França é tão relevante. Uma vitória de Marine Le Pen representaria a consolidação definitiva desse movimento, que se alastra como fogo pelos cantos da terra. No próprio Brasil, movimentos que pedem que o país passe por uma intervenção militar e a ascensão do deputado federal Jair Bolsonaro em pesquisas de intenção ao voto presidencial já demonstram a chegada do radicalismo como alternativa às instituições políticas.

Como já foi dito, outras forças estão surgindo que funcionam como contraponto a esta realidade. Na eleição que ocorreu na Holanda nesta quarta-feira (15), por exemplo, a previsão era de que o partido da extrema-direita PVV, do islamófobo Geert Wilders, seria o grande vitorioso e conseguiria um grande número de cadeiras no parlamento. Entretanto, embora tenha aumentado o número de representantes, o partido não obteve o resultado que esperava, conseguindo apenas alguns lugares a mais enquanto o partido de centro-direita VVD, do premiê Mark Rutte, emergiu em primeiro lugar, mesmo tendo perdido cadeiras, caindo de 41 para 33.

Mas o grande vencedor da noite e que acabou atraindo as atenções foi um partido de esquerda, o GL (Esquerda Verde), que conseguiu mais do que triplicar o número de suas cadeiras no parlamento, passando de quatro para 14. Outro dado interessante é o fato de que partidos com preocupações climáticas aumentaram sua representação, passando de 15% para 31%, conforme apontado pelo autor e jornalista Rutger Bregman. Além disso, o progressista D66 (Democratas 66) também teve bons ganhos em seu número de representantes, chegando a 19. O grande perdedor foi o PvdA (Partido Trabalhista), da esquerda tradicional, que desabou – de suas 38 cadeiras, manteve apenas nove.

Como apontado pelo colunista da Folha de São Paulo, Clóvis Rossi, a esquerda surpreendeu, ou seja, o descontentamento dos Holandeses em relação ao sistema teve uma guinada à esquerda, ao invés da esperada à direita.

Comparado ao primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, o líder da Esqueda Verde, Jesse Klaver, afirmou que a resposta da esquerda à ascensão da extrema-direita deve ser que os seguidores da ideologia parem de enganar a população e sigam seus ideais. “Mantenham seus princípios. Sejam diretos. Sejam pró-refugiados. Sejam pró-europeus. Estamos ganhando força nas pesquisas. Eu acho que essa é mensagem que precisamos mandar para a Europa. Você pode parar o populismo”, disse em uma declaração publicada pelo jornal britânico “The Guardian”.

Seria sábio se líderes em todo o mundo escutassem as palavras de Klaver. A população já deixou claro que está cansada da política tradicional, do establishment como ele é. Ao invés de tentar incansavelmente salvar o sistema, é preciso encontrar novas alternativas que tenham o povo, e não os interesses político-econômicos, na linha de frente, para que possamos construir uma sociedade mais justa e respeitosa, o que vale tanto para a esquerda quanto para a direita. Do contrário, o populismo radical continuará voando livre, disseminando ódio por onde passar.

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