“Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

Na canção Construção de Chico Buarque, o músico narra um dia na vida de um trabalhador da construção civil que acaba morto no exercício da sua profissão. A mesma história é contada diversas vezes com as palavras trocadas o que, junto com a melodia, dá a ideia de repetição. A música, que foi escrita na época da ditadura, critica as relações de trabalho e como o pobre só tem valor na sociedade enquanto ele tem mão de obra a oferecer. Quando ele perde a capacidade de contribuir, a sua vida se torna descartável.

O filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, conta a história de Clara (Sonia Braga), uma jornalista aposentada e viúva que tenta resistir às investidas de uma construtora em comprar o apartamento onde ela criou os seus três filhos e morou quase toda a vida. A protagonista é pressionada por diferentes personagens, incluindo seus filhos e alguns funcionários da contrutora, que questionam a sua intransigência em vender o último apartamento que falta para que um complexo imobiliário possa ser erguido no seu lugar.

Tal qual a música de Chico, o longa brasileiro discute o papel que a sociedade dá às pessoas e às coisas. Nele, cada um parece saber onde é o seu lugar: O trabalhador apenas segue ordens, proprietários vendem seus apartamentos porque dinheiro é dinheiro e edifícios antigos são derrubados para que novos sejam erguidos no seu lugar. Clara parece ser a única capaz de ver além dessa lógica. Para ela, é normal ouvir músicas no seu tocador de MP3 e ao mesmo tempo ter uma coleção de vinís, assim como não há problema em frequentar a casa da sua empregada.

A partir do momento que o estilo de vida de Clara começa a atrapalhar os demais, ela deixa de ser vista como uma pessoa interessante e passa a ser considerada um peso por eles. A guerra silenciosa da protagonista para viver de acordo com as suas vontades, abraçando o novo sem se esquecer do seu passado, traz à tona o peso que a sociedade tem sobre as nossas vidas privadas.

Aquarius é um filme onde tudo funciona e que vem agradando a crítica em geral. No entanto, o longa ganhou mais notoriedade pelo protesto contra o Impeachment protagonizado pelos atores em Cannes do que pelas suas qualidades em si. Boicotar esse filme significa menosprezar o caráter intrinsecamente transformador da arte e do artista e se esquecer que um dia Chico Buarque de Holanda teve que deixar o Brasil por compor uma música como Construção.

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