O que aconteceria se a caixa de comentários dos portais de notícia adquirisse o poder de matar pessoas? Como seria um videogame capaz de explorar nossos medos mais profundos? Quão longe iríamos para burlar a morte?

  Envolvente, por vezes chocante, mas sempre perspicaz, a série britânica de ficção – ou nem tanto – Black Mirror e suas mais novas especulações sombrias invadiram a internet após o lançamento de novos episódios na Netflix em outubro deste ano. Uma onda de artigos, textões e memes invadiu as redes sociais, e o programa foi difundido de forma quase que irônica, usando como ferramenta o próprio tema que o embasa: a tecnologia. Seu sucesso ficou tão evidente que não ter assistido a pelo menos um capítulo da criação audaciosa de Charlie Brooker parece ter se tornado um pretexto para a exclusão social – seria Black Mirror o novo Game of Thrones? –, e seu nome virou lugar comum em quaisquer manchetes que tragam alguma espécie de inquietação sobre o futuro.

  Há um motivo sólido por trás de todo esse rebuliço, no entanto, e ele reside no fato de que a série não poupa esforços em arriscar. Não se trata de uma crítica leviana às redes sociais ou aos celulares, como fazem os nossos avós quando falam dos “jovens de hoje em dia”, nem tampouco de um estudo pós-apocalíptico do homem contra a máquina, digno de O Exterminador do Futuro.

  Ela consiste, em verdade, numa problematização contínua de assuntos muito mais sutis e difíceis de serem abordados: a vingança travestida de justiça, a consciência humana, a empatia, o luto, a traição, o medo… E, para falar deles de modo adequado, Black Mirror encontrou uma solução elegante na estrutura de antologia, irrestrita a tom, personagem, ou até universo. Seja por meio de uma história romântica num futuro longínquo, uma narrativa acelerada em um mundo militarizado, ou uma ficção policial à moda de CSI, cada capítulo se destaca dos outros em letras garrafais – quem não checou o título duas vezes só para ter certeza de que estava assistindo à mesma coisa, que atire a primeira pedra.

  Após refletir sobre algumas dessas particularidades, cheguei à conclusão de que resumir Black Mirror a um mero programa sobre tecnologia é uma análise um tanto rasa, ao perceber que, na verdade, ele só a usa como pano de fundo. O seu verdadeiro foco somos nós mesmos – e essa é a parte mais traumatizante.



  É claro que não há nenhuma trama que possa ocorrer sem as invenções humanas, seja as que já existem ou as que podem estar por vir. Mas não é só sobre elas que pensamos atônitos, com o controle nas mãos, enquanto concluímos que os vinte segundos para o próximo episódio não são nem de longe suficientes para nos recuperarmos. O que o programa reflete, de maneira crua e brutal, é a forma como nos tornamos fúteis, sádicos e egoístas diante do mundo, além de fazer questão de não nos deixar atribuir esses pecados a outras pessoas – e nem a outras coisas – senão a nós mesmos. E nunca um espelho foi mais sinistro do que aquele que o título da série indica.

  A eficiência com a qual todo esse desconsolo se instala deve-se principalmente ao fato de que o enredo é construído, brilhantemente, de modo a confrontar e manipular o próprio espectador uma vez após a outra. O que me distanciava dos algozes e observadores de toda a violência cometida contra os protagonistas de “White Bear” e “Shut Up and Dance”, se no final questionei a empatia que eu havia lhes dirigido? Por que continuei assistindo à terrível sina do personagem principal em “The National Anthem”, mesmo compreendendo o quão doentias eram as pessoas que a viam na televisão? E como terminar “Fifteen Million Merits” e não me sentir claustrofóbico, imaginando quantas vezes abdiquei da liberdade em nome de um futuro incerto? Até mesmo na hora de compartilhar a angústia e o existencialismo que a série despertou, eu me lembrei de “Nosedive” e indaguei sobre o sentido de jogar aquela informação nas redes sociais para parecer mais culto, mais inteirado, ou mais engraçado.

  Compreendi a partir dessa aflição que a real genialidade de Black Mirror está no jeito com que ela brinca com os espectadores, mesmo semanas após desligarmos a TV: a série não acaba quando ela acaba. Seja ao assistir à eleição de um político-piada; numa pose pouco espontânea mantida em busca de likes; lendo um comentário repleto de ofensas gratuitas; ou ao bloquear alguém das suas redes sociais, cenas e situações emblemáticas insistem em saltar à mente com uma frequência assustadora. É impossível se considerar a mesma pessoa após terminar todos os episódios, e isso se trata de algo de fato raro e precioso: uma experiência inovadora, um exponente da arte crítica que derruba crenças e anula confortos.

  É fundamental elogiar ainda a direção extraordinária, a trilha sonora astuciosa, e as atuações impecáveis, entre inúmeros outros pré-requisitos cumpridos com graça, sem os quais Black Mirror não seria a obra-prima memorável que aqui descrevo. Mas o que consagra seu lugar no topo das melhores séries de todos os tempos é a mensagem por trás dela: a tecnologia não passa de uma ferramenta, e a crueldade associada a ela é apenas um reflexo da nossa própria.

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