Nossa política é barroca; sempre foi. Bem que tentamos construir uma democracia modernosa sobre as ruínas das casas-grandes, mas foi um breve interlúdio no leitmotiv patriarcalista de sempre. Leitmotiv, não: perpetuum mobile. Quando parecia que íamos mudar, lá vamos nós de novo governar sem negros, sem mulheres, sem movimentos sociais, sem salvaguarda de direitos trabalhistas ou humanos. Pros nhonhôs escravocratas, governar é mandar na fazenda: no Ministério da Fazenda (o único que existe nesse país). Vocês conseguem ouvir de novo o ranger das redes mórbidas? o açoite a gritar sobre as chagas?

         Nossa política é barroca: nosso estado é cosa nostra. Relações entre famílias e entre particulares. Dinâmica tradicionalíssima: a Declaração dos Direitos do Homem, as leis de sufrágio, os tratados dos quais somos signatários, a Constituição Federal, são todos prescindíveis! Basta o Breviário dos Políticos, de Mazzarino. Traição e amizade entre patres familias. Traição e amizade de oratores & bellatores: Temer beija a cruz de Feliciano que lambe o anel de Cunha que benze as armas de Bolsonaro – sem falar na massa anônima de oligarcas. Às favas, os laboratores.

         Em meio a esse pesadelo de mau gosto, é preciso ter esperança. Há outras vias, é certo, e independente do que nos reservar a Fortuna num futuro próximo, todos os nossos passos envolvem aprender com os erros do passado. Assim sendo, já que o o país amanheceu mais barroco do que o costume, vamos à lição do dia.

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DÉCIMAS DA TRAIÇÃO

Um homem astucioso se reconhece com frequência 
por sua doçura afetada (…)”
– Giulio Mazzarino. 

“A tamareira (do árabe التمر “tamar“) ou datileira (Phoenix dactylifera), 
palmeira extensivamente cultivada pelos seus frutos comestíveis,
(…) seria originária dos oásis da zona desértica do norte de África.” 
– Fonte: Wikipedia

 

‘Tâmer’ é uma palavra 
que evoca coisa melosa
ao árabe que faz sua prosa
daquilo que árabe lavra.
A tamareira bem alta
um doce fruto provém.
Fruto que estraga, porém,
se guardado na Câmara.
Tão logo amarga-se a tâmara,
amarga-se a boca também.

Temer é um apelido
que evoca coisa malsã;
sua amizade, que é vã,
o fez um bom inimigo.
Por isso, amigo, eu te digo
pra que você se adiante:
Afasta de ti o farsante.
O traidor – que é esperto –
é bem ruim ter por perto,
mas é pior se distante.

Teme mais, sobretudo,
o lobo na pele do cordeiro:
quem mais se faz verdadeiro
é que engana, é astuto.
Não teima, amigo, no fruto
do erro que se plantou.
Confiança bem pouca eu dou
ao mal que tanto se alarde:
escarro na mão do covarde,
pois sei que o pior não passou.

 

 * William Zeytounlian é mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo, poeta autor de Diáspora (Demônio Negro, 2015), tradutor e atleta da seleção brasileira de esgrima.

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