Entre os dias 24 e 25 de maio de 2016 foi assunto nas redes sociais e, posteriormente, nos jornais de grande circulação o caso que ficou conhecido como “estupro coletivo no Rio de Janeiro”.Já deixo claro desde o início: não assisti ao vídeo que, ao ser compartilhado no twitter, foi o estopim do referido caso. Tive muita vontade de assistir. Mas escolhi não assistir.
Sou socióloga e nos últimos anos tenho me dedicado a analisar justamente imagens de violência sexual contra crianças e adolescentes.. Com uma diferença: as imagens que analisei em minhas pesquisas, são cenas construídas em filmes chamados de ficção. Tendo a compreender a relação ficção/realidade – questão clássica dos estudos cinematográficos – como mais uma das construções dicotômicas e binárias – do tipo que percebemos não “dar conta” da complexidade da experiência social, como homem e mulher, público e privado, entre outras. No caso das imagens, essa dicotomia tende a encobrir o caráter documental de filmes ditos de ficção e, por outro lado, o caráter de construção ficcional de filmes documentais. Termos e conceitos servindo à análise da ficção. Mas toda a discussão que realizei em minhas pesquisas até agora foi por água abaixo diante deste vídeo da menina do RJ.

O que são essas imagens? Como disse, não assisti (dizem que vemos uma mulher desacordada, sangrando e homens ao seu redor). Não assistir a esse vídeo foi uma escolha; endosso o que li muitas afirmarem: além de se tratarem de imagens de violência, a produção e veiculação desse vídeo constitui em si uma violência. Evitando compactuar com esse ato violento não vi o vídeo. Hoje, quase uma semana depois, dia 30 de maio de 2016, muitas outras imagens estão circulando: a imagem da própria jovem coberta por uma tarja preta, de seu vulto em uma entrevista concedida ao SBT, a imagem dos homens que vão sendo encontrados e indiciados. Todas essas imagens marcadas por classe, gênero, raça, geração, regionalidade.
Longe de propor que fechemos os olhos para essas imagens proponho de olhemos para elas de forma crítica, que pensemos sobre a construção da vítima de forma midiática e as consequências que isso pode ter em termos de representação e, sobretudo, na vida dessa mulher. E proponho também que olhemos para outra imagem: um corpo “feminino”, com sangue escorrendo pelas pernas, crucificado sobre o “símbolo do feminino”. Além da referência religiosa o que, por si, daria uma discussão e tanto, coloco a questão: é assim que queremos representar uma mulher que passou por uma situação terrível de violência – diversas violências, como tentei argumentar – e felizmente está viva? É assim que queremos representar a nossa luta e dar visibilidade às violências que sofremos? Assim que vemos a nós mesmas?
Felizmente existem pesquisadoras que estão pensando sobre essas violências, as violências sexuais, as violências sexuais relacionadas à internet. Existem militantes que vão as ruas contra essas violências, que dão aporte e conforto para as vítimas. No âmbito político, percebo como imperativo lutarmos para que a Delegacia de Crimes Relacionados a Informática esteja preparada para lidar com situações como esta em suas complexidades, como não é o caso de Alexandre Thiers, delegado titular da DRCI, cujas declarações violentas colocam em questão se houve ou não uma situação de violência, o que em si constitui uma.

Sobre os números, acredito que na importância de afirmarmos, sempre e alto e bom tom, como estamos fazendo: não importa se foram 30, 33 ou 3; se ela tinha 16, 17, 18 anos; se ela já havia transado com 0 ou 200 homens: uma mulher foi vítima de diversas violências, inclusive sexual, como muitas foram e são. Não podemos nos calar, não podemos deixar que ela seja tratada assim, seja pelos homens, seja mídia, seja por nós mesmas.

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