Junho de 2013. 

As manifestações que começam contrárias ao aumento da tarifa de ônibus feita pelo então prefeito Fernando Haddad tomam proporções inimagináveis. 

De repente, o movimento, que começara quase desapercebido com o Passe Livre, começa a ganhar adeptos. A utilização de repressão policial a mando de Alckmin faz as manifestações se tornarem populares ao ganhar a simpatia de quem nunca tivera o hábito de sair às ruas. 

No âmbito da música “vem, vamo pra rua“, criada para a Copa das Confederações, o país entra em ebulição, pegando governantes de surpresa. Cria-se o slogan “O Gigante Acordou“.

Em decorrência de sua popularização pela “propagação viral”, os pedidos começam a extrapolar a questão do transporte urbano, e passam a ser a indignação pela realização de eventos esportivos faraônicos e os pedidos por menos corrupção e melhores serviços públicos, como saúde e educação. 

O movimento dá seu primeiro sinal de perda de foco.  

Para aplacar os anseios populares, o governo mostra que aprendeu com a França de 1968 e faz o que seria mais fácil: toma as medidas paliativas que retiram o foco dos manifestantes.

São propostos os cinco pactos nacionais, que envolviam a aceleração de investimentos em transporte público, saúde e educação (destinação dos royalties do petróleo); a criação de um plebiscito para aprovar uma assembleia constituinte exclusiva (rs) que fizesse as alterações necessárias para a reforma política; e, por fim, por mais irônico que seja, o compromisso com a responsabilidade fiscal. 

Ocorre o arrefecimento.

Março de 2015. 

Dilma Rousseff, reeleita em outubro de 2014, já começa seu segundo mandato com popularidade baixa. Para piorar sua situação, o Partido dos Trabalhadores tem um revés na eleição da presidência da Câmara dos Deputados, ao ver Arlindo Chinaglia, seu candidato, perder para o ex-aliado e príncipe Suíço Eduardo Cunha. 

A falta de base parlamentar torna a vida de Dilma impossível, e seu ano político de 2015 é marcado apenas pela dança das cadeiras dos ministros, com a intenção de obter algum apoio. Em vão.

Denúncias de corrupção e a Operação Lava Jato ganham terreno, e pouco a pouco surgem novamente manifestações populares, agora com objetivos mais definidos: a saída de Dilma e o apoio ao MPF de Curitiba e a Sérgio Moro, figuras que simbolizam o combate à corrupção. 

Mas nesse momento as opiniões não se encontram tão convergentes, pois mesmo com o surgimento de provas cada vez mais fortes, ainda há quem acredite na inocência dos membros da alta cúpula do governo.

O país se encontra rachado. 

Manifestações pró e contra o impeachment de Dilma tomam as ruas. 

O PMDB, em um golpe de misericórdia, rompe com o governo. Era a morte anunciada. 

Apesar disso, o processo de impeachment se arrasta por nove meses. Em 31 de Agosto de 2016, Michel Temer “toma posse” após 3 meses como interino. 

E quem achou que as coisas ficariam mais tranquilas a partir disso errou feio.

Presente momento. Outubro de 2017.

Nos dias atuais, diferentemente dos dois momentos aqui descritos, o que se vê na população não é revolta, tampouco esperança de dias melhores. 

O que há é uma grande anemia política. 

Temer aposta suas fichas em uma agenda econômica positiva, enquanto tem a água no pescoço por questões criminais. Passa o dia com um olho no caderno de economia e o outro nas páginas policiais do jornal. 

Já enfrentou uma denúncia na Câmara dos Deputados, que lhe custou fazer justamente o que Dilma fizera para se manter no governo: oferecer cargos e trocar gente de lugar. 

Por outro lado, os indicadores econômicos de que as coisas pelo menos pararam de piorar aplacaram em parte a fúria da população, que a esse ponto já poderia tê-lo posto para fora.

Mas não é somente a economia que explica o porque de Temer ainda estar aonde está. 

Quando falo em anemia política, quero dizer que parece haver um desânimo estrutural no comportamento político do brasileiro médio, no sentido de que pouco parece adiantar o esforço de ir às ruas novamente para pedir a saída de uma só figura, se o seu substituto é tão pior quanto ou pior, uma incógnita (pelo fato de eleições nesse caso serem indiretas).

Assim, suporta-se que Temer fique aonde está desde que não faça nenhuma bobagem extrema, como por exemplo não vetar o artigo de censura do projeto de reforma política aprovado essa semana na Câmara dos Deputados.

Ainda, os próprios protestos a Temer perderam a força de revolta e se tornaram algo galhofas.

Primeiramente, Fora Temer“, algo que nasceu como protesto sério e depois se tornou meme, somente contribuiu para a desmoralização das próprias reivindicações.

Enfim, o presidente tem 3% de aprovação, mas ninguém quer tirá-lo daonde está. Nos dois momentos anteriores citados, as manifestações morreram com um tiro. No atual, morrem de inanição.

 

 

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