São Paulo de fato não é Miami. A cidade americana, sinônimo de desenvolvimento, está anos-luz da nossa querida cidade, infelizmente. As pessoas que usam esse slogan são as mesmas que comparam São Paulo com cidades europeias e usam essa mesma justificativa para cuspir ciclofaixas absurdamente caras em ruas esburacadas. 

Mas afinal, o que é uma cidade linda? Muitos concordariam que não é uma cidade cinza por inteiro. Mas a pichação deixa a cidade colorida? Pichações de gangues são parte da cultura da periferia? Se demarcação de território for arte, nossos amigos caninos deveriam ser condecorados e elevados ao status de grandes artistas modernos. A maior confusão que se faz, talvez, é colocar grafiteiros e o grafite no mesmo barco que pichadores e o picho. Duvido que alguém em sã consciência permitiria que alguém pichasse o portão de casa, mas acredito que muitos deixariam que fosse grafitado algo, o cinza mórbido ou o branco podem ser transformados… para melhor.

Pichar e grafitar em muros, escolas, casas, prédios ou qualquer outra propriedade que não seja sua é crime, a menos que haja autorização. A cidade não é de uma minoria de pichadores, a cidade é de todos. Até agora não há nenhuma pesquisa referente ao apoio popular à pichação, então dizer que é a “vontade popular” é querer brincar de Lula — ou Deus, já que o primeiro não consegue diferenciar.

No artigo de Anita Efraim ao Global P. ela escreve “Independente de ser bonito ou certo, claramente essa é a vontade da população”. Esse argumento mostra a total falta de respeito com o paulistano e com as leis, além de não ter nenhum embasamento empírico. Queremos uma cidade mais linda, então começar “apagando” o que é feio e ilegal é um excelente começo. De que população ela está falando, do conjunto de paulistanos ou do subconjunto de pichadores?! 

Nossa querida São Paulo tem ganhado uma aparência cada vez maior de uma cidade apocalíptica e as pichações contribuem, e muito, para esse aspecto de sujeira e abandono que podem repelir investimentos, desenvolvimento e competição. Contribuem também para que a cidade seja cada vez menos “ocupada” e que as pessoas, não pichadoras, se sintam cada vez menos convidadas a “fazer parte da cidade”.

São Paulo não é Miami e talvez nunca será — para a sorte dos pichadores e para o azar dos paulistanos.

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