Ninguém odeia listas. As pessoas odeiam listas alheias. Isso porque toda lista é afetiva e esses são tempos onde o afeto tem pouco da nossa atenção, que dizer do afeto alheio? Dito isso, afirmo: as melhores listas são as que mais irritam.

Quando acabei de assistir Breaking Bad, uma fábula fabulosa sobre um homem mau disfarçado de bom que decide revelar-se para a sociedade e sobre um rapaz bom, disfarçado de mau que faz o mesmo, não podia conceber que minha vizinha de quarto emitisse juízo em alto tom dizendo que a série era boa, mas insignificante diante da carga emocional e dramática de Gilmore Girls. Eu passei a odiá-la com todas as minhas forças. Descobri meses depois que Breaking Bad não era a melhor série de todos os tempos e que talvez minha vizinha de quarto não fosse maluca. Não é que eu tivesse assistido Gilmore Girls, coisa que não fiz e não farei por motivos de “não quero e não me interessa”, mas é que ao devorar House of Cards pude perceber quanto da minha devoção à Breaking Bad era ultrapassada. Eu me deixei levar pela emoção do momento e achei que o ser humano não poderia criar nada melhor e aqui estava eu levando ao topo da lista uma nova criação, cuspindo na cara do meu antigo eu com um novo xodó. House of Cards levou o thriller político para um novo patamar e expôs o universo político do nosso tempo em um momento em que o mundo se volta contra ele. Ainda assim, tão habilmente constrói seus personagens que não raras vezes eu me peguei, como é marca nas novas séries americanas, torcendo pro bandido.



A coisa se repetiu mais algumas vezes. A fase de ouro da televisão americana ainda me faria rever opiniões e listas antes consolidadas e defendidas com ardor romântico. Como pude pensar que House of Cards era a melhor série de todos os tempos quando na minha frente esteve sempre lá, a incrível e única Madmen? Uma série que trata o tempo com elegância e mostra em poucas temporadas não só o impacto da evolução da história de um país, como sua repercussão num leque de personagens tão diversos quanto perfeitos.

            As minhas mudanças constantes nos favoritos do streaming me ensinaram que não só eu estava com um indício de bipolaridade como as listas de internet ganhavam importância somente na medida em que me desafiavam a questionar preferências antes consideradas sagradas. Listas consensuais podem ser prazerosas num primeiro momento, num instante sentimos a quimera maior do ego: enfim todos pensam como eu! Mas elas são também sinal de uma boa campanha de marketing e de um comportamento de massa que leva, por exemplo, que mais da metade do mundo que tem o privilégio de ter acesso a séries considere Games of Thrones uma boa pedida quando na verdade não passa de uma telenovela mexicana recheada de sexo e disfarçada de aula geopolítica barata. Fazer o que? Prefiro as listas ousadas. As que irritam.

            Da minha parte, depois de alguns muitos episódios de Transparent, True Detective e até da irregular Black List, entre outras, não tenho dúvidas, fico com a velha e (muito) boa “Anos Incríveis” e os devaneios de Kevin Arnold, filosofando bonito sobre o que é crescer. É definitivamente a melhor série de todos os tempos. Até que se prove o contrário.

4
0

Escrever artigo sobre este tema

O The Global P. é uma plataforma aberta de debate. Os textos nele postados não refletem a opinião do site. Você tem uma opinião diferente da desse autor? Escreva o seu próprio artigo! Clique aqui e saiba mais.