I. Um esporte para um público sem um público para o esporte (ainda)

Para o público brasileiro de Jogos Olímpicos, a esgrima é um evento que normalmente passa batido. Isso é um reflexo claro de nossa cultura esportiva “não-olimpista”. Pois uma modalidade que desde os primeiros jogos dá uma contribuição tão importante para o quadro de medalhas (são 10 ouros em disputa) não passa batida para os países que se acostumaram a buscar resultados mais sólidos no geral dos esportes. Quando tem oportunidade (como nos jogos Pan de 2007, também no RJ), o público brasileiro assiste o evento com um misto de curiosidade, incompreensão das regras e muita paixão, mas sem levar verdadeiramente em conta a quantidade de fichas que os comitês olímpicos dos países concorrentes estão colocando ali.

 

II. Você sabe o que é um bom resultado na esgrima?

O investimento na esgrima brasileira aumentou consideravelmente nos últimos 6, 7 anos. O resultado deste investimento – ainda que recente e insuficiente – apareceu nas pistas nos últimos dias. Guilherme Toldo e Nathalie Moellhausen levaram o Brasil ao quadro de 8; Renzo Agresta mais uma vez nos classificou pelo ranking mundial; nossa equipe de florete o fez também, pela primeira vez. Taís Rochel, Ana Bulcão, Rayssa Costa e Athos Schwantes nos levaram para além do quadro preliminar, que por tanto tempo foi nosso lugar cativo, jogando forte. “Mas o Brasil não ganhou nenhuma medalha na esgrima”, dirá alguém. Não mesmo. Mas essa mesma pessoa saberia dizer o que é ter um resultado na esgrima? Não estamos falando de um esporte qualquer. Quadro de 8, na esgrima, é final – por muito tempo, ao fim das competições, oito atletas subiam ao pódio. Estamos falando de um esporte em que classificar para os Jogos é um resultado expressivo. E MUITA gente boa (candidatos à medalha!) sequer se classificou. Quando entendemos que “resultado” é algo que deve ser compreendido em um contexto, num pano de fundo bem particular de competitividade e tradição desportiva, passamos a dar o valor exato aos resultados que obtemos. E aos nossos atletas.

 

 III. Um esporte com favoritos demais

Num diálogo com meus técnicos, poucos dias antes do início dos Jogos, começamos a falar dos grandes candidatos a vencer no sabre masculino. “Não tem”. Ou melhor, tem; mas são tipo os 20 primeiros do ranking mundial. É a mesma coisa quando perguntam sobre quem domina na esgrima. Depois de você perguntar sobre que especialidade a pessoa quer saber (sabre, florete ou espada), vem a lista: Itália, Rússia, França, Hungria, Coréia, Alemanha, Estados Unidos, Romênia, Ucrânia, China fora um cara ou outro aqui da Venezuela, Tunísia, Suiça, Estônia, Irã… Aí a pessoa olha para a tua cara e agradece pela porcaria de resposta. Um esporte com favoritos demais ou sem favoritos? Pratico esgrima há 12 anos e ainda não me decidi.

 

IV. Uma competição cheia de zebras (que são zebras ma non troppo)

Poucos esportes exigem tanto uma combinação de aspectos físicos, táticos e psicológicos como a esgrima. É um “xadrez com músculos”, dizem. Talvez por isso, qualquer desequilíbrio entre estes fatores pode levar a um excelente resultado ou a um fiasco total. Um atleta que é forte candidato a medalha, que esta em sua melhor forma física, pode facilmente sucumbir diante da calma de outro, ou de uma torcida eufórica e que marca presença, como a brasileira.

Quantos favoritos não vimos caindo cedo nesses Jogos? Guilherme Toldo tirou Yuki Ota, segundo do ranking da FIE e campeão mundial em 2015. Quem diria? Acontece: quem entra mais equilibrado pode vencer um adversário mais forte. No sabre masculino, o primeiríssimo do ranking mundial, Alexei Yakimenko, caiu para o búlgaro Pancho Paskov, atleta que sequer  fazia o circuito mundial e que entrou para os jogos depois de uma classificação bem duvidosa por conta da tendenciosa arbitragem do pré-olímpico europeu. Yakimenko deve ter pensado que o combate já estava ganho: perdeu. No mesmo quadro, Diego Occhiuzzi, prata em Londres, caiu para o vietnamita Vu.

Quem comprou passagem para assistir o Ruben Limardo, ouro da Venezuela em Londres 2012, viu pouco: ele tomou uma lavada de 15 X 5 de um atleta do Egito ainda no primeiro quadro eliminatório. Da mesma forma, os italianos não devem ter acreditado quando viram Arianna Errigo, também ouro em 2012, cair para a canadense Eleanor Harvey, antes mesmo das quartas de final.

Os exemplos são muitos. Em resumo, na esgrima a qualidade técnica e física existem em estado latente, como potência, no atleta que treina mais e melhor. Mas isso tudo pode não se manifestar se algo faltar: calma, paciência; “humildade”, como dizem os futebolistas. “Cabeça fria e coração quente”, como diz meu treinador.

 

V. Fim de uma geração: início de outra

Os Jogos Olímpicos são um momento de certa melancolia para quem acompanha de perto um esporte. O fim das Olimpíadas sempre coincide com a aposentadoria em massa de uma geração de atletas. É triste ver aqueles que admiramos abandonando o barco depois de tantos anos mostrando esgrima de alto nível. No caso do sabre masculino, que conheço melhor, dói pensar que Yakimenko, Montano, Occhiuzzi, Buikevitch e tantos outros devem pendurar a máscara e sabre depois do Rio 2016.

Há felicidade para os países que apontam para uma nova geração. A Itália é um grande exemplo disso. No caso deles, quando a equipe A se aposenta, o público já sabe o nome dos atletas da equipe B e C de cor. Várias gerações convivem juntas. Por outro lado, é realmente triste ver a Bielorrússia – que perdeu Lapkes no ciclo passado – perder também um Buikevitch de estilo tão carismático, sem deixar ninguém no lugar!

Acho que o Brasil tem tudo para manter as esperanças. Nossa equipe, que recebeu investimento maior nos últimos anos, faz conviver atletas de grande experiência internacional e novatos. É esperançoso ver uma equipe jovem em torno dos veteranos Taís Rochel e do Athos Schwantes; saber que temos gerações mais jovens com experiência olímpica na espada feminina, no florete masculino, na espada feminina.

A esgrima nos Jogos acabou. Agora é a hora de fazer o balanço dos nossos resultados, ver quem fica e sai. Medir as forças que temos; traçar metas para o próximo ciclo. Até porque ele já começou.

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