Em 1940 o dramaturgo austríaco Stefan Zweig escrevia, desde a Bahia, uma carta ao seu cunhado onde se maravilhava com as pessoas vivendo em cabanas erguidas ao preço de seis dólares, entre bananas e mandiocas, e crianças desenvolvendo-se como se estivessem no paraíso. Zweig, sendo judeu, havia atravessado o Oceano Atlântico fugindo do nazismo em seu país natal, para exilar-se em Nova Iorque e posteriormente em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde, tomado por um sentimento pátrio pelo seu país de adoção, escreveu um livro intitulado “Brasil, País do Futuro”. Embora rejeitada pela crítica, graças ao exagerado tom ufanista, a obra tornou-se um sucesso de vendas e foi convertida em epíteto nacional. Mais de cinquenta anos depois, Darcy Ribeiro encerrava o seu livro “O Povo Brasileiro” nutrindo a mesma relação lúdica com o futuro, de eterna nação em fazimento: “Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã, como uma nova civilização, mestiça e tropical”.

Em 2016 o futuro que enxergamos é outro. Pela primeira vez vemos um Brasil já pronto e sempre fadado a repetir o seu passado colonial: o país que escreveu sua nota de rodapé na história do capitalismo, aumentando dez vezes a economia e dezesseis vezes a indústria durante os trinta anos seguintes ao fim da segunda guerra, voltará a ser uma fazenda. Antes o açúcar, o ouro, o café, hoje e amanhã a soja e o gado. O eterno país de jovens ficará velho antes de ficar rico. O assassinato de sessenta mil pessoas a cada ano mantem-se como um prognóstico para o ano próximo, apesar do endurecimento da lei penal, com a adoção do “crime hediondo”, e o encarceramento em massa desde a década de 1990. O país do futuro, de Stefan Zweig, Darcy Ribeiro, e tantos outros, transformou-se em uma milenar sociedade agrária de castas sociais.

Se algo de equitativo foi alcançado é o pessimismo distribuído à esquerda, direita e centro da sociedade. Para os primeiros, a redução de direitos constitucionais e a impossibilidade de superar o abismo social entre os pobres e os não-pobres. Para os segundos, o tsunami fiscal que se assoma desde já para as próximas décadas. Para os últimos, ambas as coisas e talvez muitas outras. Se algo permite especular que tempos melhores virão, é que o Brasil de 2016 não é o projeto de ninguém, apenas de uma classe que sempre foi sócia do Estado e desfruta de privilégios salariais e subsídios públicos, condenados tanto por progressistas quanto por liberais, e aceitos apenas pelos que desejam manter as coisas do jeito que sempre foram. Ao contrário do que se poderia especular, estes últimos não seriam os brasileiros conservadores, a maioria da população, de acordo com recentes pesquisas de opinião: o antropólogo Sérgio Buarque de Holanda lembrava que as oligarquias brasileiras não são de gente conservadora, mas de mentalidade atrasada. Renato Janine lembra que “em 2014 Roseana Sarney renunciou ao mandato para que seu vice assumisse por 20 dias e, assim, ganhasse pela vida toda um salário de desembargador”. Esse “conservadorismo” das oligarquias nacionais pouco tem a ver com a tradição ocidental de ordem, família e costumes, pleiteada pelo voto evangélico, mas com o clientelismo, patrimonialismo e o uso privado dos recursos públicos que a gigantesca maioria de uma população enxerga entre os traços mais nefastos e perniciosos da vida política de seu país.

John Stuart Mill escreveu, em 1860, que as pessoas podem até desejar um governo livre, mas se forem iludidas pelos artifícios utilizados para enganá-las estariam mais ou menos desqualificadas para a liberdade. É tentador extrapolar que Mill tenha escrito isso no século retrasado pensando no Brasil de hoje. Um dos maiores teóricos da democracia liberal previu a manipulação das massas, no que chamou de “governo de privilégios em troca da maioria numérica”, e atribuiu a elas o dever da razão. Certamente não imaginou o alcance que um monopólio televisivo de interesses particulares – financiados com dinheiro público – teria sobre as pessoas. Tampouco imaginou, e uma década atrás sequer nós mesmos imaginaríamos, a propagação acelerada de notícias fraudulentas nas redes sociais e a chegada dos tempos da “pós-verdade”, onde fatos objetivos são menos influentes para a opinião pública do que apelos emotivos e crenças pessoais. Ainda assim, inevitavelmente recairá sobre as pessoas a tarefa de entender que o mundo não se mostra ante seus olhos da forma que realmente é, pois caso assim fosse a ciência seria absolutamente desnecessária, e que todos, de qualquer orientação política, temos uma tendência maior em ignorar possíveis evidências de que uma informação é falsa, quando ela confirma a nossa visão de mundo.

Para o biólogo inglês Richard Dawkins os adultos são um caso perdido graças, justamente, à dificuldade de analisar informações que não são imediatamente simpáticas, e afirma que a sociedade deveria gastar os seus esforços com as próximas gerações, através de um sistema educacional que incentive o pensamento científico. Embora definitivamente seja uma boa ideia, é deprimente abrir mão de um debate construtivo em curto ou médio prazo. Quando as pessoas são persuadidas a cogitar que algumas das suas crenças mais íntimas podem não estar totalmente corretas, as diferenças políticas de qualquer população deixam de ser uma faísca para conflitos maiores, transformando-se em uma vantagem. Uma sociedade que se preocupa, simultaneamente, com o alívio à pobreza e com a responsabilidade fiscal certamente é mais capaz de alcançar qualquer uma das duas coisas do que outra sociedade integralmente voltada para apenas uma delas: não há crescimento econômico sem investimento em educação, assim como não há boa educação sem uma saúde econômica para financiá-la. A polaridade passa a ser um sistema quando deixa-se de sonhar com a inexistência do outro, e é de forma sistêmica que as sociedades complexas e descentralizadas funcionam. Para enxergar isso no Brasil de 2017, talvez seja preciso compreender que o Brasil de 2016 não foi o sonho dos progressistas, e tampouco dos liberais ou dos conservadores, mas apenas dos homens “cordiais”, de mentalidade “compadrista” e atrasada, aos quais Sérgio Buarque de Holanda tanto se referia.

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