Sexta-Feira, dia 24 de Junho, algo bastante surpreendente para a maioria das pessoas, aconteceu: O Reino Unido saiu da União Europeia após o resultado do Plebiscito, contrariando os institutos de pesquisas, que davam como certo o resultado a favor da manutenção do país na UE. Várias análises desde então foram feitas, com diversas visões sobre o assunto, desde pessoas lamentando o resultado, vaticinando o declínio econômico da Inglaterra, culpando os idosos pelo resultado, responsabilizando o sentimento xenófobo e a direita conservadora,  assim como os que comemoraram a saída do bloco europeu, o qualificando como um ato contra a “invasão islâmica”, como a “independência inglesa contra os poderes globalistas”, a libertação sobre a burocracia e a elite de Bruxelas, uma vítória da “Civilização Ocidental”, sendo uma vitória conservadora e com uma previsão otimista de grande crescimento econômico do país.

Todas essas análises, sejam a favor ou contra a saída do Reino Unido, tocam em pontos sensíveis e corretos para a questão, sejam elas favoráveis ou contrárias. Porém, são em sua maior parte, até o momento, análises conjunturais, que levam em conta apenas aspectos momentâneos, ou mesmo em grande parte economicistas, variando de acordo com a preferência ideológica de cada um. Porém, não se trata de tomar partido favorável ou desfavorável. Sim compreender o fato além da superfície, buscando uma análise estrutural de um fato que demonstra algo muito além do que um rearranjo político momentâneo de forças.

Desde a Revolução Francesa, há uma mudança no conceito de “nação”. A palavra em si significa o “local de nascimento”, ou seja, a comunidade onde se nasce e se pertence, que possui língua,cultura, religião, costumes em comum, não possuindo uma fronteira definida e nem correspondendo uma estrutura estatal, sendo muitas vezes a sua identidade atrelada muito mais a um poder senhorial tradicional e ancestral local do que às estruturas de Estado e do poder do rei, que era uma figura distante e na maior parte do tempo, reverenciada. Durante a Revolução, no sentido da palavra se transforma, agora atrelando a nação a estrutura do Estado, com governo e fronteiras definidas, uma cultura e língua normatizada pelo poder estatal. A identificação do sujeito passa a ser muito maior com o que essa nova criação, o Estado-Nação, do que com a comunidade onde nasceu. Para consolidar essa nova construção no imaginário popular, se cria diversos artefatos simbólicos materiais e imateriais para representar e  a “história nacional”, símbolos pátrios (hinos, bandeiras, etc), além de se utilizar de personagens do passado como “figuras heróicas da nação”, como é o caso de Joana D´Arc na França, rainha Elizabeth I na Inglaterra e Tiradentes no Brasil, sempre a fim de estimular o nacionalismo e garantir as fidelidades dos povos ao poder estatal.

Um dos resultados do estímulo ao nacionalismo exacerbado foram as duas guerras mundiais da primeira metade do século XX, que mataram em conjunto mais de 70 milhões de pessoas, o que equivale a população francesa atual. Os traumas da violência desses conflitos estimularam tentativas de criar projetos supranacionais, inspirado na proposta de “paz perpétua” de Kant, que busquem apaziguar conflitos, o que deu origem à ONU e a União Europeia. Diferentemente, porém, do que esperavam e diziam (e ainda dizem) os críticos de tais projetos, os projetos supranacionais não necessariamente se opuseram aos poderes do Estado-Nação, mas se tornou o seu complemento dentro de uma ordem internacional cada vez mais interligada pelo comércio, saberes, técnicas e tecnologias, pois tais instituições se tornaram aliados na manutenção da hierarquização internacional dos Estados, com os países mais poderosos no controle dessas instituições multinacionais, ou ao menos tendo a maior influência dentro delas, as utilizando como instrumentos de soft power. Foi o caso dos EUA, Rússia e Inglaterra na ONU e da Alemanha na UE, que se tornou a potência mais poderosa da Europa. Durante os anos 1980 até 2001, o que se viu foi o fortalecimento e o crescimento da ONU e dos blocos econômicos, influenciados pela derrocada do Comunismo soviético e a emergência de uma ordem mundial liberal, que muitos criam ser definitiva e o kathecon da humanidade, ou seja, “fim da história” .

Porém, o crescimento do terrorismo, principalmente o islâmico, e a crise econômica de 2008 corroeram essa ordem liberal e o kathecon previsto por ideologos como Fukuyama teve que ser adiado ou repensado. O fim da história da vitória final do liberalismo não só não havia acontecido, como as suas bases estavam entrando em decadência. E uma delas são os Estados-Nação, que se mostraram para muitos, ineficientes para garantir a segurança e a prosperidade econômica prometida no pós-Guerra-Fria, além de extremamente burocratizados e a serviço de uma elite vista como corrupta que não atendia aos interesses dos povos por seu alcance de influência não ser controlável necessariamente pela população, se integrando à rede do mercado transnacional, ligada à bancos, multinacionais, empresários e políticos de diversas partes do globo, o que torna a democracia suscetível à essas forças econômicas e ao poder do dinheiro. A crescente interligação internacional das culturas e dos mercados, maior abertura de fronteiras, ampliação do contato com povos diferentes geraram também uma reação poderosa das identidades locais, que se levantaram contra o cosmopolitismo. A recusa dos EUA de obedecer as determinações da ONU para não invadir o Iraque é marca inicial do enfraquecimento do multilateralismo, os ataques terroristas e o medo gerado por eles ampliaram as incertezas sociopolíticas à nível global e a Crise econômica de 2008 é a sua consolidação. Dentro desse decaimento da ordem mundial erigida no pós-Guerra-Fria, baseada no liberalismo político, democracia, direitos humanos e cosmopolitismo, começa a diminuir a confiança no Estado-Nação e como efeito, a identidade das localidades, até então razoavelmente adormecidas na maior parte da Europa (com notável exceção da Espanha, Irlanda e Balcãs, todos esses com movimentos separatistas atuantes) para reemergir com força a identidade local, em muitos casos a mais segura, mesmo a única, disponível aos indivíduos como possível resposta ao cosmopolitismo do establishment político, que tem perdido muita força.

A partir daí, os movimentos e ideias políticas que desejam um maior isolamento de suas nações ou ideias separatistas, que sempre existiram mas em poucos casos ameaçava de fato a unidade do Estado, começam a ganhar força, não sendo apenas uma questão ideológica da extrema-direita, como de maneira superficial aponta os principais órgãos midiáticos, sim uma proposta de uma considerável diversidade de forças políticas de diferentes espectros políticos. Na Espanha, em grande parte quem defende o separatismo catalão e basco é a esquerda, como a coalizão progressista Junts Pel Si e os anticapitalistas CUP, que ganharam a maioria no parlamento catalão em 2015, facilitando a iniciação do processo de independência. Os partidos do establisment, o de centro-direita PP e centro-esquerda PSOE, são contra o separatismo. Na Escócia, o partido social-democrata SNP (Scottish National Party), que quase conseguiu a independência escocesa ano passado, é que advoga a separação escocesa da Inglaterra. O partido francês de extrema-direita FN (Frente Nacional), liderado pela controversa Marine Le Pen, critica o processo de globalização e deseja maiores restrições na abertura de fronteiras, na economia e política. Nos EUA, tanto a extrema-esquerda representada por Bernie Sanders e a direita extremista do Donald Trump são criticos da globalização e defendem um maior isolamento dos EUA em relação ao mundo.

O reflexo da vitória da saída do Reino Unido da União Europeia é justamente fortalecer os separatismos europeus e aumentar a força das identidades locais, que já estão fortalecidos. A Escócia pretende convocar um novo referendo, e a chance de dessa vez obterem vitória é enorme, pois a região quer mais fazer parte da União Europeia do que se manter unida com a Inglaterra. Na Espanha, é questão de tempo a Catalunha, região mais rica da Espanha, se separar. Somente uma intervenção militar, como foi feita pelo rei Felipe V em 1715 e Francisco Franco nos anos 1930-1940 é que poderá impedir tal fato de ocorrer. Um plebiscito informal pela internet ocorrido em 2014 na cidade italiana de Veneza, que era a República independente mais antiga da Europa até 1797 e foi uma grande potência comercial e marítima dos séculos XIII ao XVII, contou com quase 70% de participação da população, aprovando por mais de 80% dos votos válidos a sua independência. A Bélgica recentemente ficou quase dois anos sem governo porque os valões e flamengos, as duas etnias que compõe o Estado, não chegavam a um acordo, obrigando o rei a exercer o poder até que ambos os povos chegassem a um consenso, que é precário e a qualquer momento pode gerar a divisão do país. De acordo com um ditado belga, “a única coisa que nos une é o rei e o time de futebol”.

O que está ocorrendo na Europa hoje foge ao senso comum das análises conjunturais que dividem tudo entre uma visão binária tais como direita-esquerda, civilização-barbárie, capitalismo-socialismo, globalismo-localismo, conservadorismo-progressismo ou mesmo a um discurso economicista seja ele liberal, socialista ou social-democrata. A questão é identitária e a decadência do Estado-Nação que conhecemos desde a Revolução Francesa. As identidades forjadas desde então para a identificação dos povos com a estrutura de Estado, confundindo-as com o seu local de nascimento tem falhado diante das próprias contradições do concerto liberal pós-Guerra-Fria, e tem trazido de novo à superfície os sentimentos de nacionalismo local. A não compreensão, proposital ou não, desse fato apenas contribui para não identificar com exatidão o fenômeno político momentâneo e não entender que ele está conectado a um processo de longa duração estrutural, onde estamos observando o esgotamento de um paradigma do centro da vida política ser o Estado-Nação para a construção de outro onde os poderes locais ganharão muito mais força, inclusive com o apoio da tecnologia que mantém grande parte do mundo interconectada, o que supostamente deveria fortalecer o sentimento de integração cosmopolita. Mas isso é assunto para outro artigo.

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