A caça às bruxas

Somos las nietas de las brujas que no pudiste quemar

Feministas de várias partes do mundo

A capa do jornal O Estado de São Paulo dessa quarta-feira (04/05/2016) entrará, seguramente, para a história brasileira como um dos momentos paradigmáticos da atual crise política. Ela concentra, como tentarei elaborar nesse pequeno texto opinativo, elementos centrais para se compreender o que acontece no país, como uma mistura de anti-esquerdismo, desejo de retorno da elite tradicional ao poder, destruição de um modelo sociopolítico, golpe branco, misoginia e machismo.

Anti-esquerdismo

O atual ódio à esquerda é a exacerbação de um sentimento que sempre existiu com relação ao PT, a movimentos sociais (tais como o MST) e aos demais partidos de esquerda brasileiros. Não se trata de uma novidade em si. O que há de novo, sim, é a intensificação dessa aversão em um período de crise política e econômica no século XXI.

A Caça às Bruxas foi o termo utilizado para designar a campanha inquisitória do senador ultraconservador norteamericano Joseph McCarthy para acusar, perseguir e caçar todas aquelas e aqueles que tinham ideias progressistas, acusados de esquerdismo. Historicamente, e não apenas sob o macartismo, o ódio à esquerda vem acompanhado pelo ódio a tudo aquilo que é diferente do padrão branco, heterosexual, cristão e rico. Pobres, negros, judeus, ciganos, esquerdistas e homossexuais são vistos como sujos, como ameaça de degeneração, como corrompidos e corruptos, que devem ser domesticados, controlados, em nome de uma normalidade.

A bruxas medievais eram queimadas por não se conformarem aos padrões tidos como normais por homens cristãos. Pelo contrário, buscavam subvertê-los.

Os donos do poder

O canto direito da mesma capa do jornal em questão aponta para um fato que é apresentado como consumado, a saída da presidenta e o governo Temer. Tal manchete ignora a determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) de vincular o impedimento de Temer ao de Dilma à, uma vez que o vice também assinou as pedaladas fiscais que ”justificam” o Impeachement da presidenta. O PSDB (partido da oposição), então, voltaria ao poder, sem ter sido o mais votado, mas através das alianças com Temer que dariam ao partido o Ministério das Cidades, das Relações Estrangeiras (Itamaraty) e a Advocacia Geral da União (AGU).

O que temos a nossa frente é, sem sombra de dúvidas, um golpe branco, ou seja, sem militares nem mortes – à priori. A elite que governou o país consegue voltar.

Esse aeroporto parece uma rodoviária

O PT então deve ser visto como um partido de esquerda, revolucionário? Ao meu entender, não. Trata-se de um partido social-democrata, portanto capitalista, que promoveu uma nova engenharia política enfocando na erradicação da fome no país, na melhoria das condoções de vida da classe trabalhadora, na diminuição da desigualdade social, na inserção de camadas desfavorecidas da população nas universidades , no fortalecimento do mercado de trabalho, de consumo e um estado pujante. Não questionou, porém, o poder dos bancos, a expansão do agronegócio, a destruição de terras indígenas.

O incômodo generalizado com o PT mistura, assim, uma questão de status: uma classe média e alta que se assusta com a ascensão das classes menos favorecidas e a consequente perda de certos privilégios. Ao lado do desgosto do pequeno clero da elite, é notável o receio das classes beneficiadas pelos programas sociais, de serem empurradas ao patamar do qual saíram, devido a crise econonômica

Assim, um possível governo Temer parece não hesitar: os governos Lula-Dilma tornaram o trabalhador mais caro, e isso reverteu em menos lucro para a indústria, gerando inclusive demissões. A FIESP, principal incentivadora do Impeachment, deve estar dando saltos de alegria com o plano Temer que busca, entre outros retrocessos para as classes de baixa rende, revisar a CLT (ver artigo específico sobre o tema, aqui).

O golpe é um golpe da elite, cujos apoiadores da classe média só tendem a perder com as mudanças propostas por Temer.

Bela, recatada e do lar: misoginia, machismo

O subtítulo da capa da Veja que causou indignação e revolta era claro: Marcela Temer é o modelo de mulher, e não Dilma, autoridade máxima do país, não obstante xingada de baranga, feia e vadia, nos protestos contra o seu governo. Queimar a Dilma, presidenta à esquerda, equivale a destruir uma das únicas forças que representa, ainda que de modo fraco e tímido, a uma barreira capaz de impedir que o governo das elites e para as elites volte.

Aqueles deputados que envergonharam o país no domingo de votação do Impeachment dizendo que o faziam em nome de seus filhos, familiares e amigos estavam sendo o mais cretinos e francos possíveis: é exatamente isso que eles farão, e já estão fazendo, queimando quem quer que apareça em seu caminho.

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