O Brasil é um país grande, de proporções continentais, que sempre aspirou a ser uma potência. No entanto, desde o início de sua história como país independente, é um país marginalizado, exportador de produtos primários e dependente economicamente de países mais fortes, inicialmente europeus (Portugal, depois Inglaterra), posteriormente Estados Unidos e hoje também China. O Brasil é uma potência regional, possui um PIB razoável, mas um Estado enorme e liberdade econômica menor do que a China. Os principais problemas do Brasil têm sido a economia de exportação de commodities, produtos de baixo valor agregado, a baixa produção tecnológica e, alguns alegam, a grande concentração de renda e desigualdade social. Teoricamente, isso começou no período colonial, com instituições extrativistas, sistema de plantation (monocultura, exportação, latifúndio e mão-de-obra escrava) e poder baseado na autoridade, contrastando com o modelo de liberdade iniciado nos Estados Unidos sob a negligência salutar da Inglaterra. Porém, há outros problemas.

 O pensamento político no Brasil tem se inclinado para esquerda, em resposta ao período de direita na ditadura, e mesmo a insatisfações com o liberalismo desde muito vivido sob a Inglaterra, tendo este criado dependência econômica quando aplicado de forma bruta. Há três pontos a se analisar.

 Primeiro, é muito simplório considerar apenas o eixo esquerda x direita, uma vez que ele não distingue boa parte dos vieses políticos desde muito tempo. Nazismo é esquerda ou direita? Stalinismo é esquerda? O regime liberal dos Estados Unidos é direita ou esquerda? Se é direita, não se aproxima do nazismo, que também é direita? Portanto, temos que considerar pelo menos outro eixo, o libertário x autoritário. Sociais-democratas são liberais de esquerda, como o PSDB, nazismo é direita autoritária, socialismo é esquerda autoritária e regimes liberais como o da Inglaterra Vitoriana e dos Estados Unidos são direita liberal.

Segundo, o liberalismo aplicado no Brasil no século XIX, época do Império, teria gerado dependência econômica frente às potências, frequentemente a Inglaterra. Isso teria se dado porque a falta de proteção ao mercado interno e as baixíssimas taxas alfandegárias impostas a produtos estrangeiros teria prejudicado a produção nacional e a sua evolução. Consequentemente (não existia socialismo), a outra opção seria aumentar as alfândegas, romper o sistema de tratados (exploratórios), patrocinar a indústria nacional e promover planos econômicos para desenvolver a economia. Basicamente, keynesianismo. O keynesianismo é uma política anticíclica, adaptada para períodos de crise para tirar o país do ciclo depressivo e fazer ele levantar. Então, é necessariamente temporário e emergencial. Na América Latina, o keynesianismo foi transformado em Teoria do Desenvolvimento pelo Raul Prebisch e, com Celso Furtado e outros, virou o “mito do desenvolvimento”. Não é muito sensato confiar na intervenção estatal, uma vez que ela pelo menos gerará empresas dependentes do governo, não-competitivas, e, no caso das empresas estatais, frequentemente improdutivas. Outro erro é considerar que somos capazes de planejar e administrar a economia como se soubéssemos como ela deve ser. Cada ser humano, inclusive nas empresas de mercado, nos cargos públicos e na política, pensa e age de maneira autointeressada; não há um ser coletivo que pensa o melhor para todos e busca o bem comum. Deveríamos ser capazes de ver isso, como é senso comum em países desenvolvidos quando se pensa em política e como se encontra descrito na Escolha Pública, de Buchanan e Tullock.

Aqui chegamos ao terceiro ponto. Tendemos para a esquerda. O que leva a crer que políticas de redistribuição de renda, medidas populistas de concessões-placebo à população, aumento dos impostos e da máquina pública e subvenções internas levarão a um Brasil melhor? Nenhum destes estimula o desenvolvimento. Mas há pontos mais graves. A Constituição Brasileira de 1988 é de esquerda. Vejam-se os princípios fundamentais da CR/88 e o terá comprovado. Vão além do mero respeito aos direitos humanos. Vide “o Estado deve promover o crescimento econômico do país”, “redução das desigualdades sociais e regionais” e “alívio da pobreza”. Talvez uma constituição mais liberal fizesse mais bem. Por que o governo deve fazer alguma coisa pelo bem da população, contrariando o direito de escolha do cidadão e desconfiando da sua capacidade de administrar a própria vida? Dai-lhes liberdade! E por que tantos confiam que o governo, estando escrito que visa ao bem comum, efetivamente o buscará? Todos somos pessoas, inclusive os políticos, e pensamos como pessoas. Não pensamos como povo. Não se pode exigir do governo que resolva os problemas. Ele só criará mais, porque incha cada vez que se lhe incumbe fazer algo mais. São os incentivos do sistema. Por que um corpo de intelectuais seria capaz de conceber uma coisa que milhões de pessoas, no sistema de mercado, constroem de maneira automática e difusa, pensando cada uma apenas em si mesmo? Ainda há os que acreditam que o socialismo daria certo, e qualquer medida tomada nessa direção seria um passo bem dado. Apesar das evidências de insucesso mostradas por regimes socialistas no mundo todo, especialmente a dissolução da URSS. Busca do comunismo leva a regimes autoritários, e nada fará com que esse regime seja substituído por uma utopia sem Estado em que todos se governarão pelo bom-senso. Estamos esquecendo qual é a natureza humana. Precisamos no mínimo de polícia, Justiça e prisões que protejam os direitos à vida e à propriedade, a liberdade de contratos e a dignidade. E não é por meio de aumento do Estado ou de ditaduras que conseguiremos isso. Políticas intervencionistas, por sua vez, seja keynesianas, seja de redução de desigualdades sociais, só gerarão distorções na economia e dependências do governo.

 Como devemos fazer, então? Inspirarmo-nos em países desenvolvidos e imitá-los? Primeiramente, não. Olhemos ao nosso redor. A nossa realidade é a América Latina. É com estes países que podemos nos comparar. As nossas histórias são parecidas, e muito diferentes de Europa e Estados Unidos. Estamos fadados ao fracasso, dado o sistema de colônia de exportação que nos foi imposto, e que nos comprometeu a história? Não. Tomemos o Chile como exemplo. Por meio de uma liberalização de mercado, e apesar da ditadura de Pinochet (que, apesar disso, gerou uma centralização de Estado importante para a coesão do país), alcançou grande crescimento econômico e níveis de liberdade de empreendimento muito altos.  Mas há outros problemas no Brasil. Educação, violência, corrupção. Qual seria a primeira coisa em que pensaríamos? “O Estado deve fazer alguma coisa”. E aí vemos problemas mais profundos: impostos altos, desenvolvimentismo, baixa liberdade econômica. A corrupção é consequência do sistema, e por mais que medidas que a combatam (como a operação Lava Jato) sejam interessantes, o nosso discurso fica mais inteligente se saímos do plano moral-antropológico (“somos corruptos porque a população é corrupta, é o jeitinho brasileiro”) e discutimos o plano político-econômico. Federalização não colaboraria para diminuir o poder de quem é incumbido administrá-lo?

Qual é o interesse brasileiro? Não somos muito burros. Também não acredito na incompetência dos políticos. Eles não são burros. É inocência pensar que eles não agem com inteligência para com o país. As propostas de reforma trabalhista, previdenciária e da educação são necessárias. Apesar da maneira porca como se tentou resolver a questão previdenciária (instituindo mínimo de 49 anos de contribuição, contra os 30 ou 35 anteriores, para pedir aposentadoria por tempo de serviço), esse problema só surgiu porque o Brasil não conseguiu aproveitar a janela demográfica (onde a população adulta, de contribuintes, é maior que a população de jovens e idosos, que são dependentes) e crescer para se bancar no futuro, quando a grande massa de adultos se tornasse em idosos. Quanto à reforma trabalhista, ela é muito bem-vinda. As nossas leis remontam à CLT, concebida no período de Getúlio! Há pelo menos 70 anos que isso ocorreu. Estão obsoletas. De novo, reclamam da reforma da educação com vieses ideológicos. São apelos populistas os que chamam para a revolta.

 Queremos Lula em 2018? Para resolver todos os nossos problemas? Isso é ilusório, mas muitos acreditarão em sua persuasão. Acreditamos que o nosso poder sobre a política são as eleições, e queremos confiar que elas mudarão tudo. Não é bem assim. Por que não fazemos previdência privada? Montamos acordos de trabalho? Criamos nossas próprias empresas? Educamos nossos filhos como achamos melhor? Por que temos que confiar no Estado? Por causa do seu poder coercitivo? Isso é teoria do complô, em que voltamos a acreditar em sistemas de opressão, voltamos à luta de classes e estamos pensando à esquerda do espectro de novo. Nesse ponto, não há soluções. Uma parte podemos conceber: queremos liberdade. Menos impostos, Estado Mínimo. A outra parte (como serão as empresas, o mercado, as instituições) só podemos conceber com uma concessão: cada um, pensando em si, fará suas propostas e os melhores, escolhidos pelo mercado, verão a continuidade de seus projetos. Dar liberdade a cada um de fazer o que quiser, limitado apenas por leis contra crimes como fraude, roubo, estupro e assassinato, é um passo importante em que devemos respeitar o direito de escolha e desapegar da vontade de controlar a vida dos outros.

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