Ontem tirei uma foto com a Laerte. Parada LGBT, muita gente indo pra Paulista, encontro a cartunista no ônibus, faço uma graça qualquer e sigo o trajeto – esses encontros inesperados que só São Paulo nos proporciona. Entro no metrô Butantã, feliz por me descobrir vizinha da Laerte e, quando desço na estação Paulista, lá está ela de novo, linda no seu vestido preto e com sorriso nos olhos. Falo o quanto acho incrível o trabalho dela, peço uma foto, ao que ela prontamente responde com uma pose pra selfie. Terminada a parada do orgulho LGBT, posto a foto nas redes sociais. Uma amiga, que se identifica com a linha teórica do feminismo radical, questionou o motivo pelo qual eu dei visibilidade à cartunista. Minha resposta? Eu adoro o trabalho da Laerte, acho-a uma pessoa extremamente inteligente e uma figura que levanta discussões importantes. Onde moraria o problema de uma foto, ou de uma admiração?
O ponto que me instiga não é o questionamento da minha amiga, mas a necessidade que nos impõem de sermos representantes coerentes de uma ideologia, seja ela qual for. Eu sou feminista, me identifico com a linha radical, e nem por isso eu me vejo na obrigação de deslegitimar as vivências das pessoas transexuais/ transgêneras/ travestis, e todas as variantes que esse movimento pode ter. Isso não significa que eu não reconheço os privilégios que, por exemplo, Laerte teve durante seus anos vividos como homem. Com certeza, muitos caminhos lhe foram facilitados por causa da socialização masculina, e a cartunista construiu sua carreira enquanto homem. Contudo, agora, como mulher, Laerte passa por outros processos de opressão – o que não a exclui da posição de opressora, em algumas situações. Da mesma maneira que eu, como branca, tenho privilégios e sou capaz de me reconhecer no papel de opressora de pessoas negras em inúmeros casos, ainda que me ponha vigilante em tempo quase integral para não exercê-lo.
A questão é muito mais complexa do que se coloca, e não tem síntese – ou melhor, eu é que não vejo síntese possível. Quando eu digo que me identifico com uma linha teórica específica, isso não significa que eu não possa questioná-la, ou que eu concordo integralmente com todas as ideias ali expostas. A minha luta pela sobrevivência em uma sociedade capitalista e patriarcal não invalida outras lutas diferentes da minha. Não é porque eu me preocupo com a opressão vivida por pessoas que nasceram com vaginas que eu vou deslegitimar os outros tipos de opressão vividos por outros segmentos da sociedade. Eu não posso fazer parte do transativismo, porque nasci com uma vagina e me afirmo mulher, do mesmo modo que não me integro ao feminismo negro porque nasci com a pele clara. No entanto, reconheço a existência e a importância desses movimentos paralelos aos quais eu me integro.
A impressão que tenho é a de vigilância constante. Se eu me afirmo feminista radical, preciso nunca dar visibilidade a uma pessoa transexual/ transgênera/ travesti. Ou, se sou uma pessoa transexual, devo necessariamente acusar qualquer feminista radical de transfóbica, sem nem escutar o que ela tem a dizer sobre qualquer assunto. Pra ser coerente, eu preciso repetir e repetir e repetir um discurso fechado. Aliás, desse modo se elimina qualquer possibilidade de incoerências, tão importantes e construtivas. Como se ideologias prontas não carregassem consigo o potencial emancipador dos questionamentos. Como se não fosse bom questionar, avaliar, desviar um pouco da linha homogeinizadora de palavras englobantes. Como se fôssemos imagens e discursos congelados no tempo.
O pensamento não precisa caber em caixinhas, sabe? Eu tenho uma afinidade aqui, outra ali, e todas elas constituem a minha singularidade. Se for pra escolher uma linha de pensamento sem questioná-lo, entro pra uma igreja qualquer e abraço a fé. Se não o faço, é porque não acho que esse seja o caminho. Eu quero ouvir todas as vozes e construir uma linha de pensamento particular, ainda que pra isso a minha carteirinha de feminista seja cassada e eu nunca mais possa voltar ao cargo. Não importa.
A linha que tenho tentado atingir é de respeito pelo outro como ser humano. Eu tenho minhas particularidades, como Laerte tem as suas, como essa minha amiga tem as dela. O motivo que a faz se identificar com o feminismo radical de maneira integral deve ser tão respeitado quanto o motivo pelo qual Laerte se identifica, atualmente, como mulher. Não me sinto capaz de me posicionar de forma absoluta com relação a nada, principalmente porque há vivências individuais que nos escapam enquanto coletividade, e que fogem a qualquer ideologia. Penso que é exatamente nesse ponto que mora toda humanidade possível: na empatia que podemos ter com nossos pares e opostos, reconhecendo nossas limitações de compreensão do outro.
Ontem tirei uma foto com Laerte. Danem-se os astros, os signos, os búzios, as ideologias: Laerte é maravilhosa, sensível e única. Minha amiga também.

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