Eleições são só uma parte da democracia. E democracia só se constrói com diálogo e participação social.

Em politica todos temos que nos posicionar. Mesmo a abstenção é algo politico, é uma escolha. E a gente precisa saber disso mesmo que não queira saber. Mesmo se gostariamos que a a politica e os politicos morram e tudo se exploda.

Não votei em Dória. Tenho motivos relacionados as políticas públicas e visões de construção de cidades — e da própria política em si — que se aproximam mais do programa de governo de Haddad e Erundina, e se abster pra mim nunca foi uma solução, nem de vida.

Época de eleições é disputa sim, é convencimento sim, quem convence mais leva. Politica é em sua essência comunicar e convencer.

Portanto Dória e sua equipe se mostraram os mais políticos de todos nestas eleições municipais. Reconheço seu mérito — e que fique bem claro que isso não é uma oposição a ser “gestor e administrador”, acho perfeitamente possível sermos muitas coisas ao mesmo tempo, podemos inclusive ser ocultadores no discurso que fazemos daquilo que a gente realmente quer.

O futuro prefeito e sua equipe soube exatamente como convencer a população, o que demonstra seu domínio pleno daquilo que faz a base da política — coisa que amadores e não políticos não tem expertise para fazer. Fizeram a análise perfeita dos motivos históricos que elegeram ou não prefeitos e prefeitas em São Paulo, o que é uma estratégia brilhante em um município que nunca reelegeu ninguém.

Foram atrás do que move o paulistano em sua vida pessoal: o trabalho e a diferença de classes explicita em seu território urbano, o que gerou em “João Trabalhador” seu rótulo perfeito, afinal o estigma dessa cidade como tal jamais seria desfeito em apenas 4 anos, nem que o Dalai Lama governasse, além do fato de marketeiros e empresários saberem exatamente a clara e óbvia consciência de qual sociedade e educação política estamos tratando.

Com isso, a equipe de João Dória pautou seu marketing e comunicação — acrescido de mais 3 milhões de sua doação pessoal para sua própria candidatura (pense na sua festa de aniversário/casamento com mais 3 milhões de reais como seria..) e a conjuntura de ódio ao PT, sendo ele do maior partido de oposição. Bingo! sem erro.

Como iniciante na vida política e apaixonada pelo tema, confesso achei brilhante a orquestra e aprendi muito sobre política com isso. Talvez seja por isso que depois de uma segunda-feira deprê, e uma semana de construções políticas na base da participação social incrível, hoje estou bem feliz com o resultado dessas eleições.

Feliz porque a política que acredito não vem de um partido ou de um prefeito, vem de nós mesmos e da nossa participação social ativa. E agora que periferia e elite mostraram que acreditam e querem a mesma coisa — aquilo que o trabalho e o dinheiro representam — cria-se agora através da imagem que João Dória representa, uma base comum de sociedade. Base que acredito estar longe do que deveria ser uma base ideal de sociedade, mas ainda assim uma base para alguém como eu que acredita muito mais nas pessoas, no cidadão, do que no dinheiro ou nas opções lamentáveis de políticos que temos ai.

Políticos que, se tem uma visão de sociedade e mundo progressista e madura, lhe faltam conseguir se comunicar com o povo na linguagem que este entende, com a mensagem certa e contemporânea que irá convencer — caso Erundina.

Ou que, mesmo tendo um compromisso com a verdade, com o que é ou não é possível de se fazer numa gestão de governo, e seja extremamente coerente com seus ideais, não tem uma visão ampla de quão complexa e diversa é nossa sociedade — caso Major Olimpio.

E seria fácil fazer a mesma análise com todos os/as demais candidatos/as, não apenas com eles e elas, mas com a gente mesmo. É só fazer um teste de autoconhecimento e perceber nossas qualidades e defeitos, descobrir onde somos bons e onde não somos. Com políticos é a mesma coisa. Pois diferente do que a gente queira acreditar estes são pessoas, não super heróis.

Então penso que entendendo esse movimento politico de ódio que se instaura na cidade, no país e no mundo, precisamos entender o que buscamos, o que a queremos: uma politica feita de super heróis de ferro, ou uma politica feita de seres humanos imperfeitos, que erram e são passíveis de corrupção, assim como todos nós.

Somente depois de entender isso, poderemos enfim começar a fazer politica, falar de politica, discutir politica e o mais importante, reformar a politica, e combater tudo aquilo que prejudica nosso país, estado, cidade. E isso jamais virá de nossos políticos sem nossa participação ativa, sem nossa abertura ao diálogo, sem nossa apropriação com força e paciência, deixando o ódio de lado e passando a construir consensos.

Portanto espero que saibamos construir João Dória, sem ódio e com diálogo, exigindo que este diálogo não pare de acontecer entre prefeitura e sociedade, e que a política que ele representa hoje corresponda a cidade que queremos amanhã. Manter as conquistas de uma gestão que empoderou cidadãos para uma gestão coletiva através do Governo Aberto só depende de nós mesmos, caso contrário continuaremos neste elástico de politicas públicas cansativas, o que aumentará cada vez mais nossa insatisfação e inação, abrindo espaço para mais votos nulos e abstenções e a perigosa apropriação de minorias interesseiras e conservadoras ao extremo que não representam uma democracia, mas se dizem em seu nome

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