I.

            Na semana passada, os guerrilheiros do Estado Islâmico realizaram mais um atentado contra monumentos históricos. Com muito esmero cinematográfico e bélico, destruíram as ruínas do templo de Nabu, na cidade arqueológica de Nimrud, no norte do Iraque. A zona é controlada pela milícia islamista desde 2014. 

            Como todo ato que é de ordem espetacular – em termos de “representado com grandiosidade” – uma ação dessas envolve um autor/ator, um meio pelo qual a mensagem é transmitida e um público destinatário do show. A mídia é a destruição; seus responsáveis, os guerrilheiros fundamentalistas. Mas, contra o quê verdadeiramente eles atentam quando destroem sítios arqueológicos? E contra quem, no fundo, desferem a mensagem?

            Buscando esboçar uma resposta, eu diria, em uma leitura superficial, que essas ações atentam contra o outro fantasmagórico que o Ocidente representa para eles. Em 1903, o historiador da arte e administrador de monumentos públicos vienense Alois Riegl (1858–1905) publicou um libelo em que sintetizava muito bem a atitude europeia/ocidental em relação aos vestígios arqueológicos do passado. O livro se intitulava O culto moderno dos monumentos [Der moderne Denkmalkultus]. Não cabe aqui aludir a todas as diferenciações e valores atribuídos por Riegl a esse tipo de documento histórico. Cabe apenas destacarmos que, quando foi escrito, a apreciação arqueológica da Europa por seus monumentos já havia atingido o patamar de uma verdadeira idolatria, sendo que o século XX só veio agregar a essa atitude, transformando o lugar monumental de memória em uma verdadeira mercadoria a serviço do mercado de turismo. Destruir ruínas de 3000 anos choca a sensibilidade e a mentalidade do ocidental médio pelo que contém de desdém por sua atitude padrão (no mais das vezes inconsciente). Você, imagino, sentiu isso quando soube de Palmira, na Síria.

            Por outro lado, destruir esses vestígios arqueológicos implica num atentado contra o próprio executor, num golpe contra sua própria consciência ética e histórica. Pois o que significaria um templo babilônico de uma religião extinta, senão a memória de que ele, o terrorista, e sua história podiam ser diferentes? Mais do que um cemitério do que foram a vida e crenças de outra época, local morto e sem dinâmica, os resquícios do passado nos servem de lembrança sobre aquela parcela de alteridade, de diferença e desconhecimento que compõem o palimpsesto do que nós mesmos somos.

            Aos destruir “convenientemente” aquilo que não nos interessa em nosso passado, realizamos um desserviço ético a nós mesmo, pois tentamos reprimir e adiar as conclusões inevitáveis de uma crítica histórica elementar: a de que a história sempre pode ser diferente, a de que o passado não informa quem somos, mas sim as muitas coisas que podíamos e podemos vir a ser. Destruir o passado em prol de uma narrativa é congelar-se num universo miseravelmente escasso de possibilidades identitárias. E uma suposta identidade que precisa dar demonstrações de força sobre sua legitimidade não faz mais do que assinar o seu atestado de fragilidade.

 

            II.

            Nesta semana, Omar Mateen matou 50 pessoas e feriu um número semelhante na boate Pulse em Orlando, nos EUA. O lugar, voltado a festas LGBT, estava repleto de gays latinos. Ignorando os mais bárbaros comentários (que visavam justificar essas mortes por serem mortes de homossexuais), alguns dos posts mais perturbadores que lemos sobre o tema buscavam ou afirmar perversamente que Omar Mateen era um gay enrustido e frustrado, ou minimizar a importância das vítimas serem gays, alegando que se tratava de terrorismo (e não de homofobia). De um jeito ou de outro, o que vemos é a tentativa de relativizar um fato gritante (eram gays e gays latinos) e deslegitimar a verdade incontestável que os diferentes grupos militantes da causa LGBT explicitam há décadas: a homofobia é um problema estrutural de ENORMES proporções.

            Contra o quê verdadeiramente atenta um psicopata homofóbico quando fuzila 100 homens? O que diz a mensagem que sua barbárie disfere? Em minha leitura, acredito que não se trata de algo tão diferente do que disse acima acerca dos vestígios do passado. Para qualquer fundamentalista de direita, o passado é algo importante, mas nunca integralmente: ele só merece ser revisitado depois de um grande esforço de destruição daquilo que não serve à sua narrativa reconfortante. Ele remove do passado tudo aquilo que contém de diferença, tudo aquilo que é discrepante da projeção (narcisista) que faz de si mesmo.

            O ato de intolerância não contém, de certo modo, o mesmo gesto de obliteração da alteridade justamente por ela informar, por meio do Outro, o que nós mesmos podemos ser, o que nós mesmos poderíamos ter sido? Uma chacina como essa é um exemplo paradigmático e extremo. Mas não estaríamos lidando com semelhante lógica quando nos deparamos com os argumentos mais obtusos dos escandalizados contra a inserção de currículos de gênero nas escolas ou quando nos deparamos com pseudopolêmicas sobre beijos gays, paradas LGBTs, etc?

            Ainda no século XIX, o poeta francês Arthur Rimbaud, jovem e talentoso, formulou o inteligente axioma je est un autre: “eu sou um outro”. Você não se espanta, caro leitor, que em pleno século XXI a lição esteja tão pouco aprendida? Exijamos de nós mesmos, entretanto, um último esforço. Ainda temos muitos fantasmas para exorcizar.

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