Com quase um mês à frente da prefeitura de São Paulo, João Dória, que vendeu durante a campanha a imagem de antipolítico, apresenta muitas características e toma atitudes que o desmentem. Mais do que isso, o aproximam muito do último prefeito da capital, responsável por vivermos um dos períodos de populismo barato mais profundo  que se viu. 

Comecemos com a demagogia: tanto o prefeito tranquilão quanto o prefeito trabalhador são especialistas em, por meio da persuasão, mobilizar as pessoas a defenderem suas ideias. No entanto, via de regra utilizam-se de maneira que não beneficia ninguém, mas somente ajuda a construir a sua imagem. O antigo prefeito foi muito inteligente em mobilizar a juventude em benefício próprio para criar uma imagem de humilde e descolado. Ajudou também a insistência em medidas vistas como inovadoras, como a implantação de ciclofaixas, mesmo que os resultados sejam, no mínimo, duvidosos. Mas não foi o único a criar esse culto à personalidade ridículo: Dória desde o primeiro dia de seu mandato tem se fantasiado de gari, cadeirante e limpador de grafite. Além disso, o próprio slogan de campanha (“Dória trabalhador“) já mostra uma tentativa de aproximação com o eleitorado em geral, uma vez que é visto como oriundo de uma elite inacessível, o que diminui a empatia. Algo que não é de todo ruim, mas quando o (anti)político transforma isso no principal foco de atenção de seu governo, não beneficia em nada a população. Se ele tem as melhores ideias, como vende que tem, não precisa dessa demagogia barata. Pior que isso, para alguém com background de setor privado, o que se esperava de alguém como ele é que simplesmente administrasse de forma discreta e eficiente. Ao contrário, o que se vê é alguém que quer aparecer. 

Ainda, o ambos parecem ter sido possuídos pelo espírito do populismo. Para falar desse tópico, utilizarei como critério para classificar alguém como populista aquele trazido pelo periódico britânico The Economist na matéria “The Economist Explains: What is populism?“: a concepção de Cas Mudde, cientista político e professor da Universidade da Geórgia, de que o populista é aquele que se promove politicamente como líder de um grupo puro que pode combater uma elite (que não necessariamente é econômica) corrupta. O populista, em síntese, é o oposto do pluralista. Assim, pode-se ver o populismo dentro de várias ideologias no cenário político mundial:

 



This thin ideology can be attached to all sorts of “thick” ideologies with more moving parts,such as socialism, nationalism, anti-imperialism or racism, in order to explain the world and justify specific agendas. Poland’s Mr Kaczynski, a religious-nationalist populist, pushes for a Catholic takeover of his country’sinstitutions from elite secular liberals. The Dutch Mr Wilders, a secular-nationalist populist, demands acrackdown on Islam (in defence of gay rights) and reviles the multicultural elite. Spain’s Podemos, an anarchistsocialistpopulist party, pushes to seize vacant buildings owned by banks and distribute them to the poor, andattacks “la casta” (the elite caste).

 

Haddad foi mestre em criar a noção de que o que dificultava a sua vida era uma pequena elite conservadora da capital, algo que foi desmentido depois que teve uma humilhante derrota em todos os bairros da cidade (Além disso, sua melhor performance foi em Pinheiros, bairro conhecido como de elite). Talvez o momento mais absurdo de seu governo tenha sido quando ele utilizou da estrutura da prefeitura para aplicar uma pegadinha no jornalista Marco Antonio Villa, seu desafeto. Enquanto seus adoradores aplaudiam e riam, silenciosamente o câncer da improbidade administrativa se espalhava pelo município.

De fato, atender indiscriminadamente a todos os pagadores de impostos não era lá prioridade (ou sequer interesse) para o prefeito.

Já Dória começa seu governo comprando uma briga boba com grafiteiros/pichadores: com o programa Cidade Linda (que em outros aspectos nem é má ideia), criou a ideia de que era necessário combater esses que atrapalham a sua ideia de limpeza. 

Ainda com relação à questão do Cidade Linda, é fato que ambos usam algumas medidas como “cortina de fumaça” para que se evite discutir outras medidas mais complexas e impopulares. Instalação de ciclovias, retirada de pichações e grafites e abertura ou não de avenidas aos fins de semana são exemplos de temas que mais foram discutidos no âmbito do município e, por mais que tenham sua importância, serviram, de forma voluntária ou não, para que evitássemos discutir algo “menos soft news”, por assim dizer. Pior que isso, muitas vezes servem para retirar atenção de medidas fracassadas. 

Em suma, o novo governo começa com vários vícios do antigo. É nosso dever fiscalizar e evitar que isso se repita. Se o novo prefeito se promove como trabalhador, antipolítico e administrador, que mostre isso. Tempo para fazer ele tem. O que falta é pararmos de fomentar isso. 

 

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