Dentre as propostas do candidato recém-eleito à prefeitura João Dória (PSDB) há algumas que não parecem mais do que atentados diretos ao uso da boa razão. Em meio aos pontos apresentados, é possível discernir aqueles de barganha (manter o grosso das ciclovias, mas com publicidade, por exemplo), os que cumprem a cartilha de seu partido (privatizações, parcerias público-privadas em hospitais, etc) e alguns que estão ali para seu eleitorado mais conservador delirar, mesmo não fazendo nenhum sentido.

            Uma dessas propostas é a de erradicação da cracolândia pela internação compulsória dos usuários. Essa proposta quer dizer o fim do projeto De Braços Abertos, criado por Fernando Haddad, que nunca foi bem visto pela opinião pública conservadora, ainda que seus resultados sejam comprovados pesquisa após pesquisa. Altamente ineficazes, a ação policial e psiquiátrica parecem saciar mais a sede de sangue do eleitorado do que sanar o problema da compulsão.

            Dória propõe uma política de higienização à moda antiga, fracassada na teoria e na prática. Basta pensar com um pouco menos de preguiça para entender que o que está sendo discutido não é o problema do usuário, mas o “problema” da Luz. Todos sabem o que “higienização” significa: elevar a especulação imobiliária ao nível de um problema policial. Dória irá prender todos os usuários – “internação compulsória”, ele diz – até levar a cabo sua bizantina política de “embelezamento urbano”. Um palpite: teremos 0% de cura e tudo vai piorar (crack + encarceramento em massa).

            Outra proposta que faz seu eleitorado conservador ir à loucura é a de voltar a aumentar a velocidade nas marginais (e em todas as outras vias, se depender de muitos que nele votaram). Se São Paulo é uma cidade conservadora em praticamente todos os aspectos possíveis, a Questão Carro toca de forma bem particular a sensibilidade do paulistano médio que ama ficar preso em um trânsito agressivo e quase insolúvel.

            O que parece tão irracional nessa proposta é o fato de, como a anterior, ela ser pautada e defendida mesmo depois de pesquisas demonstrarem que não se trata do mais lógico a se fazer.  Um ano após a redução da velocidade nas marginais, o número de acidentes caiu em quase 40%. (Quando colocamos  números assim, muitas vezes esquecemos de lembrar que estamos falando de vidas.)

            Preservar e respeitar vidas, ler e acatar estatísticas: João Dória parece não ligar muito para essas coisas. Propostas como as duas acima estão em seu programa de governo como ossos para cães raivosos. Elas não trarão nenhuma consequência positiva pela cidade. Muito pelo contrário, o problema do crack persistirá agravado pelo acirramento da violência policial e o caos e as mortes em nossas vias automotivas voltarão a aumentar.

             É que o resultado que Dória almejava com essas propostas já foi atingido antes mesmo de ele assumir o posto: ele queria conseguir voto do eleitorado conservador mais violento, aquele que vê na política uma válvula de escape para o ódio.

            Ou, para aplicar a nossa realidade mais próxima a lógica do título do manifesto fundador do Estado Islâmico, veremos em ação o gerenciamento da barbárie [The management of savagery].

            Dória é um gestor, afinal de contas, não é?

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