A eleição de Donald Trump ainda não foi plenamente absorvida pelo mundo. Para praticamente todos os analistas e jornalistas, a eleição de Hillary Clinton pelo Partido Democrata era certa. Todos os veículos midiáticos, afinal, colocavam-se ao seu lado, assim como as pesquisas de intenção de voto anteviam sua vitória. E o comitê de campanha do republicano certamente trabalhou com muito mais afinco diante dos dados que se apresentavam.

Entretanto, uma maioria silenciosa falou mais alto na cabine de votação.

Donald Trump elegeu 290 delegados contra 228 delegados de Hillary. Além disso, tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado alcançaram maioria republicana. O pleito de 2016 parece ter evidenciado a saturação da sociedade americana para com a política democrata. Mas 2016 também deu um importante recado para alguns segmentos políticos e ideológicos: ficou claro que a esquerda americana ajudou a eleger Donald Trump.

Em primeiro lugar, vale ressaltar que a eleição de Trump foi bastante alavancada pelo fato de o partido Democrata ter dado a nomeação como presidenciável a Hillary Clinton, e não Bernie Sanders. Sanders é um lunático socialista, mas, assim como Trump, propunha uma mudança brusca na política americana. Ambos – Trump e Sanders – representariam, afinal, um confronto direto ao establishment e ao status quo das elites políticas americanas – ainda que um fosse mais à esquerda e o outro, mais à direita. Mas a nomeação foi justamente para Hillary Clinton, a cara da velha política americana.

Hillary Clinton representa o que há de pior na política. Graças a figuras como ela, surgiram fenômenos como o “capitalismo de Estado” e a perversa associação de grandes corporações e bancos em conluio com políticos que lhes possam conceder privilégios. Hillary foi financiada por Wall Street e pelos capitalistas que vivem de favores, e não da preferência de seus mercados. Hillary é a democrata que, em períodos eleitorais, abomina guerras e conflitos internacionais, mas, em seus tempos de Secretária de Estado, não hesitou em enviar drones para matar civis do outro lado do mundo. O estelionato eleitoral das clássicas figuras democratas já não funciona mais: a população pôde, finalmente, ver quem foram os verdadeiros responsáveis pela ascensão do Estado Islâmico enquanto um grupo com real poder bélico.

Mas, além disso, nos Estados Unidos, a esquerda também assumiu um caráter fascista e totalitário como no Brasil. O debate morreu, prevalecendo a rotulação dos adversários e o desprezo por quem pensa diferente. A esquerda conseguiu, de fato, ganhar a famigerada “guerra cultural” disputada pelas mais diferentes ideologias. Consequentemente, basta “ser de direita” para o sujeito ser um crápula sem coração, detestar a população pobre, ser racista, xenófobo, homofóbico, misógino e tudo o que possa haver do mal na face da terra. É a polarização fácil: os bons contra os maus.

As influências do pensamento pós-moderno amaldiçoaram o modo de se fazer política da esquerda tradicional. Ao invés de buscar na persuasão e na argumentação a conquista de novos adeptos e seguidores da ideologia, a esquerda preferiu optar pelo fascismo argumentativo. Basta xingar, mandar o adversário ir estudar ou, então, questionar o argumento apresentado não pelo mérito da questão, mas pelas características de quem fala. Debater, para boa parte da esquerda atual, não é para todo mundo: depende do seu “lugar de fala”. Para falar sobre homofobia e debater o tema, têm legitimidade apenas os membros da comunidade LGBT*, bem como, para falar de racismo, teriam legitimidade apenas os negros.

A argumentação em si foi marginalizada. O fascismo classista e segregacionista dominou a fala em público: está autorizado a opinar apenas quem pertence ao grupo sobre o qual se discute. De repente, ascendeu uma verdadeira “ditadura dos ofendidos”: basta contrariar determinado dogma para ofender seus defensores e, por conseguinte, perder o direito à fala. A contraposição e a oposição, por mais respeitosas que possam ser, foram marginalizadas pelo próprio conteúdo de seus questionamentos. E, ao contrário do que pensa a esquerda, o eleitor não é um meio, mas um fim em si próprio. O eleitor tem sentimentos e sabe reconhecer quando está sendo usado para um projeto de poder. Ou será que a esquerda achou que poderia rotular todos os indecisos e apoiadores de Donald Trump de racistas, ignorantes e xenófobos e ainda ganhar o voto dessas pessoas? Por que o eleitor votaria em quem sequer quer saber seus motivos para votar em um ou outro candidato, mas apenas o ridiculariza e marginaliza?

À luz de tais colocações, não é difícil compreender porque nenhuma pesquisa eleitoral conseguiu antever a eleição de Donald Trump. A maioria silenciosa fez-se presente nas urnas, mas, nas pesquisas, o registro era diferente. Afinal, por qual motivo o eleitor americano revelaria sua preferência partidária? Para ser estigmatizado pela esquerda como racista, machista, xenófobo, homofóbico? Para ser ridicularizado por pensar diferente? Para não ser perguntado sobre suas opiniões, mas sim rotulado e marginalizado no debate?

Grande parte das esquerdas atuais não permite o debate ou o pensamento em sentido contrário. A ditadura do politicamente correto ocultou a face verdadeira do povo, que não encontra mais espaço para se posicionar. A esquerda não deixa: colocações contrárias às suas próprias podem ofender outras pessoas e, portanto, não devem ser ditas. Oras, resta apenas ao eleitor manifestar sua real posição na cédula de votação, praticamente o único lugar onde ele não poderá ser xingado por falar o que pensa.

É claro que grande parte dos eleitores de Donald Trump não revelou sua intenção de voto: a esquerda americana não deu espaço para opiniões diversas. Muitos eleitores de Donald Trump certamente são racistas, homofóbicos e xenófobos, mas não a maioria: a maioria, na verdade, está preocupada com o sustento da sua família, com o sucesso dos filhos em sua vida profissional e clama por uma mudança que Hillary jamais poderia oferecer. E isso não foi um fator percebido porque a esquerda não deixou que fosse.

O caminho, como sempre, não é o autoritarismo, mas sim o debate. E a esquerda precisa aprender isso se quiser sobreviver. Rotular e gritar com o eleitor não o fazem mudar de ideia: apenas escondem suas reais preferências.

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