A carne humana está à venda na peça Eu vou me amar em você. Quem paga mais pelos seios da moça de cabelo prateado, que aparece catatônica no leilão? A plateia é atacada quando convidam o público para participar do arremate. E não é que um dos participantes entra na brincadeira? “É pra levar ou consumir aqui mesmo?”, ele pergunta. Gabriela Barretto, protagonista e coroteirista da peça, é a mulher de cabelo prateado. Beirando o bizarro, sua excelente atuação traz à tona todo o potencial trágico do texto. De cena em cena, numa composição absurda, as relações amorosas são pintadas num quadro visceral. A personagem de Gabriela se empanturra de frango e vinho, batendo os pés no chão, como se buscasse uma satisfação proibida para os niilistas – ou para quem, coração de pedra, já não pode sentir mais nada. É uma cena especialmente desesperadora, em que a atriz prova um talento especial para a tensão dramática de viés ultrarromântico. “Como amar num tempo em que os corações são como rochas?!”, indaga o amante bruto, armado de faca, prestes a acertar (ou não) a maçã sobre a cabeça da pretendente. Um casal é incapaz de se encostar, separado por um paralelepípedo de gelo, e evita qualquer palavra de carinho e consolo durante um diálogo monocórdio. Uma mulher mergulha um peixe entre as pernas, freneticamente, numa lembrança de seu marido morto (ou da visão que ela costumava ter dele). Nada acontece, apesar do esforço, ela não chega lá. O retrato é cru, e talvez por esse motivo fez lotar sucessivas sessões nos palcos das universidades onde o teatro é mais respeitado em São Paulo, na PUC e na USP.

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