Cada vez mais tenho visto, nas redes sociais, jovens na altura de seus vinte, vinte e poucos anos, propagando “ideais conservadoras” sobre um passado “maravilhoso”, com menos violência, com “pessoas mais felizes” que podiam andar tranquilamente nas ruas, até quaisquer horas da noite que quisessem. Supostos integrantes de uma sociedade justa e segura que haveria de ter existido no Brasil dos anos 60, 70, 80… Mas estes jovens não viveram nestas décadas, e ao que tudo indica, tão pouco estudaram a história por trás das equivocadas lembranças de seus avós…

Se por um lado, à luz da razão e lógica, é fácil perceber o conjunto de equívocos surgidos nas lembranças de uma pessoa com oitenta anos ao se lembrar de quando tinha trinta, por outro, à luz da história, é fácil perceber o conjunto de equívocos surgidos na cabeça de um jovem que, idealizando romanticamente uma época a partir da memória de um terceiro, constrói uma opinião de que, o hoje é pior que o ontem. Assim o equívoco do velho começa quando ele afirma que sua memória, é, por si só, confiável. O equívoco do jovem continua quando ele acredita que isso possa ser verdade. Ao fazer isso o jovem constrói um conhecimento que é idealizado e baseado em um relato pessoal, individual, e originário de uma memória subjetiva e falha (como são todas as memórias), ao invés de buscar construir um conhecimento baseado em diversos dados históricos, que precisam ser estudados e considerados em seus contextos.

E o contexto da sociedade nos anos 50, 60, 70… não era dos mais suaves. A sociedade daquela época aceitava casar crianças de treze anos com homens de trinta, e pouco se importava com as conseqüências. Se uma criança fosse assediada ou violentada na rua, se chegasse em casa tarde da noite, apanharia muito antes mesmo de tentar relatar qualquer coisa. Não existia internet, smartphones… se algo acontecesse a alguém – e acontecia – apenas as oito ou doze casas da rua tinham chances de saber, de forma deturpada, do ocorrido. Ninguém tinha absolutamente nada de valor para carregar, então, não havia o que roubar, assim roubavam as casas. Quando a coisa mudou um pouco nos anos 80 e 90 começaram a surgir os roubos de tênis, bonés, carteiras… E as pessoas começaram a crer, equivocadamente, que “tinha piorado”, que os roubos tinham aumentado. Mulheres nos anos 70 podiam ser mortas por “honra”, agredir uma mulher não era crime, pedofilia também não. Se uma jovem fosse violentada na rua e chegasse em casa e contasse, estava “desonrada” e corria o risco de ser violentada pelo pai, pelos irmãos. Durante a ditadura qualquer um que tentasse apontar um ato de corrupção era arrastado para algum canto e morto, então, nada de “jornais sensacionalistas” noticiando por ai. E como matavam gente! Roubava galinha do coronel, morria. Olhava para a namoradinha do filho do coronel, morria. Contrariava o coronel, morria… Eis o contexto, histórico, 60 -70.

No fim, muito dos crimes de oportunidade que acontecem hoje não aconteciam simplesmente por não se ter o que roubar, mas roubavam o que dava: fitas k7, tampas de válvulas de pneus – começaram a fazer de metal, com um tipo de tranca, eram mais valiosas. Muitos dos crimes hediondos não eram crimes, o ato acontecia, o crime não. O “justiçamento” era comum, tanto que, era comum! Racismo, violência contra a mulher, contra transexuais, crianças, gays e lésbicas era tão comum que não era visto como violência e sim como uma ação “natural” da sociedade, que mantinha sua “ordem”. E assim, desta forma, passava despercebido e não gerava “estatística criminal”. Neste contexto todo, é fácil, muito fácil, perceber como a realidade em si se deturpava e como, quem estava no “meio do comum” só poder ter “boas lembranças”. Aquelas mesmas, romantizadas e equivocadas, que são passadas de velhos para jovens.

Os jovens, sem memórias, compram barato – pois é mais fácil – as lembranças subjetivas de seus avós, e passam a crer que “no tempo do vovô” era melhor! Que não havia violência contra sua avó, que ela, apesar de ter casado em um casamento arranjado, sempre foi super feliz. Que as crianças filhas de uma violência ininterrupta cresceram saudáveis e equilibradas. Mas é aquela situação, todos os crimes hediondos que hoje pipocam na TV e nas redes sociais, aconteciam igualmente nas décadas passadas. Mas não eram considerados crimes, nem hediondos e ficavam reclusos aos lares, no máximo, à rua. Talvez, três ou quatro casas.

No mundo das falsas memórias as mentes sem lembranças embalam o coro de um ódio que não conhecem, e vendo no conservadorismo a resposta, no idealizar de uma sociedade que nunca existiu, como modelo do que se deve construir, rolam a bola de um ódio que nunca sentiram. Nas mentes sem lembranças, memórias equivocadas, falsas, pessoais, subjetivas, embalam a marcha em uma visão conduzida por uma viseira diante de um espelho. São os jovens conservadores são aqueles que querem o retorno daquilo que nunca existiu, sempre dizendo repudiar as atrocidades que andam construindo. Num mundo sem história a tragédia é uma certeza, um jovem conservador é só uma tragédia dantesca! Que Deus nos livre da juventude dos velhos.

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