Creio ser necessário ver o óbvio ao analisar este filme, até porque como disse Bertolt Brecht “que tempos são estes, em que é necessário defender o óbvio?” Então vamos a ele. 

 

Nos cruzamentos entre os dois lados da porta da cozinha parecem que tudo é composto de por partes tênues, cordiais, que ao longo do filme, percebemos o quanto se faz uso de cosméticos nas interações entre patrões e empregados.  

 

Os fios destes cruzamentos vão ficando tensos quando ‘os da porta da cozinha pra lá’ (empregados) cruzam a fronteira e tentam ficar ‘da porta da cozinha pra cá (patrões)’. Neste meio, há um ‘cale-se’ insistente para que tudo fique como sempre foi. Assim, com este olhar fechado, podemos sistematizar o filme dirigido por Anna Muylaert, “Que Horas Ela Volta?”.

 

O sinal gráfico indicando uma pergunta no título do filme se fica claro ao assisti-lo, podemos também dizer que ele quer é cobrar uma incômoda exigência a resposta que nos lança ao inevitável: “nossa, eu também sou assim. Eu já fiz isso com a minha empregada”. 

 

Esta espantosa constatação, mostra nossa conivência (na primeira parte do filme a gente ri com sonoridade e algumas vezes até debochada do universo da Val) com o querer colocar panos quentes e não promoveremos rupturas às sequelas deixadas pela história. Assim o filme é desafiador a cada um de nós. 

 

Durante o andar do roteiro onde a manutenção de nossos desprezos ao universo da Val e a vergonha sentida diante do politicamente correto, o filme nos traz a nossa redenção ao torcer apaixonadamente por Val até sentimos vontade de aplaudi-lo, e de pé. 

 

A ambientação cênica do filme ‘Que Horas Ela Volta?’ quase que se dá por inteiro na casa que Val (Regina Casé) trabalha como empregada doméstica. Isso pode parecer pobre quando comparado às escalas hollywoodianas. Mas repousa ali a riqueza do filme de Muylaert. 

 

Ele é carregado de um pretérito onde o ofício do saber fazer das domésticas, das cozinheiras brasileiras, das amas de leite, criadoras…, temem suas raízes na escravidão negra. Val pode até não ter uma origem negra, mas de ‘pobre coitada’ ninguém fica com dúvida. Tanto tempo histórico e não se conseguiu desencardir (ofício este geralmente destinado às domésticas) o suficiente de uma das vexaminosas cromatizes culturais mesmo a 129 anos da Lei Áurea. É a temática dos direitos humanos sendo postergado e promovendo certo apartado na escadaria social. 

 

A tentativa ‘dos da porta da cozinha pra lá’ entrarem e ficarem junto aos ‘da porta da cozinha pra cá’, fica visível com a chegada de Jéssica, que ‘aterrissava’ do nordeste brasileiro. Ela é filha da empregada doméstica, a Val. Jéssica que se define como não inteligente e sim curiosa, ‘invade’ o lar dos patrões de sua mãe, com seus valores dos novos tempos. 

 

Jéssica naturalmente faz promover rompimento das fronteiras aumentando as tensões entre quem se considera ser um VIP na Terra (lembro de Elis Regina interpretando “Alô, Alô Marciano”) e enfrenta os da cozinha pra lá, os pobres, os da escadaria muito abaixo do topo. 

 

Este contexto do filme me lança à Aylan Kurdi. Símbolo dos refugiados contemporâneos, ele é o menino sírio que foi encontrado morto em praia turca quando da tentativa de seus familiares de fugirem de conflito, da pobreza.  Tentavam atravessar fronteiras para chegarem a ‘paraísos’ econômicos e sociais. A história de Val e Jessica vincula com aqueles imigrantes. 

 

Entrando na reta final da ‘segunda parte’ do roteiro do filme, temos o ápice da tentativa da travessia entre os lados da porta da cozinha. No take em que Val conta a patroa o feito de que sua filha passou no vestibular e que o filho da patroa não fora contemplado, é contraposta pela euforia de Val que faz da cena um hino de interpretação (parabéns Regina Casé!!) e de um necessário rompimento ‘de portas’. 

 

Mas com este desfecho, as retaliações, antes das rupturas, vieram. A patroa que é estilista reconhecida; gosta de viajar – a Val usa várias camisetas que indicam ter sido dado pelos patrões na compra de suvenir no exterior; usa pratarias importadas; oferece festa ao som de Bossa Nova; seu marido se diz artista plástico e tem quarto separado dela; ela e suas amigas se vestem “fashionistas”, enfim, pode-se dizer que ela é da classe média alta, bem esclarecida, cordial com um perfil que alguns podem a classificá-la de “Cult”. Porém ela sai das aparências finas. ‘Sobe nas tamancas’ ao proibir que a filha da empregada possa frequentar os ambientes ‘da porta da cozinha pra cá’, deixando claro que Jéssica só poderia ficar ‘da porta da cozinha pra lá’.  

 

No próximo plano, a empregada Val diz ao celular à sua filha Jéssica: “sua mãe lhe ama”. Mas vale o detalhe: ela diz isso de dentro da piscina que tanto temia entrar. Um ato simbólico que dá início do romper em definitivo com os anos dedicados àquele lar. 

 

A patroa mais uma vez reage. Ao saber do fracasso do filho no vestibular e a possível ascensão social de uma filha de empregada por ter sido contemplada, resolve mostrar a manutenção da suposta superioridade, enviado seu filho estudar no exterior. Uma saída das elites que já nos é bastante conhecida. 

 

Os fios já visivelmente tensos faz Val notar o jogo tênue do disfarce cordial e ela ‘quebra’ as fronteiras rumo a uma libertação. Condição está que ela prefere ser lançada mesmo na baixa escadaria do morro da desigualdade (demite-se do emprego) onde ela, como disse o poeta, passa a vislumbrar o direito a gritar mesmo que ainda em fios tensos, mas agora na esperança a uma clave de sol.

 

 *uma leitura do filme ‘Que Horas Ela Volta?’ de Anna Muylaert

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