Na Turquia, nada parece estar claro.

As fotos veiculadas pelas mais diversas mídias (jornais estabelecidos e mídias sociais) são impressionantes. Em sua quase totalidade, homens de cabelo escuro (alguns carecas), muitos com bigodes, outros de barba rala, diversos enrolados na bandeira nacional turca, se colocam na frente de tanques, tentam abri-los para tirar os soldados golpistas, ou então os espancam.

Quem eram os militares golpistas, e de quem eles tentaram tomar o poder?

Ao que tudo indica, militares de médio escalão seguindo os ideias nacionais e ”liberais” de Mustafa Kemal Atatürk, tentaram tirar o poder do controverso presidente conservador Recep Tayyip Erdoğan, repetindo um conflito político já tradicional na recente história moderna da Turquia. Militares identificados com ideias liberais ocidentais tomaram as rédeas do país em diversas ocasiões (três delas via golpes militares), sempre marcadas por massacres, a primeira pelo próprio Atatürk, pai-fundador da Turquia Moderna, em meio ao genocídio armênio perpetrado pelos jovens turcos nacionalistas no final do Império Otomano e que continuou sob a Turquia Moderna. Em 1960  militares tomam o poder contra a força que a esquerda ganha no país, promovendo diversos massacres, e tornando o país membro da OTAN.  A história se repetiria, com outros atores, em 1971 e 1980.

Nos últimos anos, o governo Erdoğan tem se mostrado cada vez mais autoritário, cada vez menos democrático, acumulando poderes, fechando canais de televisão opositores ao seu governo, reprimindo com brutalidade protestos internos de movimentos sociais de esquerda, além de encabeçar uma guerra sangrenta contra o direito de autodeterminação dos curdos, desagradando inclusive setores liberais pró-ocidente, que veem o desejo de aproximação da União Européia mais distante. As reformas propostas por Erdoğan, o fator de se tratar de um governo islãmico-conservador, e a dificuldade de lidar com os refugiados sírios bem como combater o Estado Islâmico são fatores que certamente incomodam setores militares.

Como afirma uma nota veiculada por comunidades Curdas: ”essa situação é a prova da falta de democracia na Turquia. Essas lutas por poder e tentativas de tomadas de poder são testemunhas de países não-democráticos onde um poder autoritário realiza tentativas de golpe para derrubar outro poder autoritário quando as condições são propícias. Foi isso que aconteceu na Turquia”.

Erdoğan parece ter saído vitorioso dessa tentativa de golpe. Se a política é a continuação da guerra por outros meios, como uma vez comentou um filósofo político francês no século passado, parece já estar claro que a resposta de Erdoğan à tentativa de golpe que atravessou o seu poder só veio a torná-lo mais forte.

O governo turco está seguindo o caminho dos ditadores mais cegos do século XX, que diante de ameaças ao seu exercício do poder, ampliaram o medo e a violência. Desde sexta feira, Erdoğan prendeu 6mil pessoas, e seguirá a violência estatal, violações de direitos básicos, e o acirramento da guerra contra os curdos – além da já obtusa relação com o Estado Islâmico, que muitos veriam como sendo utilizado por Ankara para combater os curdos e as curdas que lutam contra o Estado Turco por sua autonomia.

Os turcos que saíram às ruas conseguiram barrar um golpe militar, sem dúvidas. Resta saber se a população conseguirá também barrar a expansão dos poderes de Erdoğan, e desestabilizar sua engenhosa máquina de controle. São tecnologias de golpes distintas, com características particulares, embora ambas com consequências nefastas.

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