[Este texto contém muitos spoilers. Ler por sua conta e risco.]

Animais Noturnos é daqueles filmes que não acaba quando as luzes do cinema se acendem. É um filme que deve ser discutido posteriormente para que seja melhor compreendido. E mesmo assim, é difícil captar toda a simbologia escondida nas suas entrelinhas. Por isso, digo que saí da sala de cinema sem entender muito do que havia acabado de assistir. Nos dias seguintes, conversando com amigos e lendo críticas na internet, pude captar melhor a visão do diretor, Tom Ford, e então, decidi que seria importante assistir Animais Noturnos uma outra vez.

Na segunda vez, ficou bastante clara a intenção do diretor de criar um paralelo entre Susan, a protagonista do filme, e Tony, o personagem do livro. Se em alguns momentos os personagens se relacionam de forma sutil, em outros, isso é feito de maneira bastante escancarada, beirando o exagero. Se Tom Ford se destaca pelas qualidades estéticas dos seus filmes, ainda lhe falta a sutileza de diretores mais experientes (leia-se Win Wenders em Paris, Texas). Nesse quesito, no entanto, o diretor evoluiu muito de O direito de amar, o seu primeiro filme, para esse último.

Assistir Animais Noturnos uma segunda vez trouxe à tona as suas falhas, mas as suas qualidades também ficaram mais aparentes. Um dos méritos do longa é a forma, cheia de símbolos, como ele acaba. O manuscrito do livro enviado à Susan tinha como propósito expor toda a mágoa que Edward carregava desde que havia sido abandonado 19 anos antes. Seria ele uma tentativa de vingança? Ao meu ver não. Acredito que seja a forma que ele encontrou de encerrar o relacionamento na sua cabeça e seguir em frente. O manuscrito serviu para falar por Edward tudo que ele não pôde falar quando o relacionamento acabou de fato.

Quando Tony morre no livro, é como se Edward estivesse finalmente encerrando o assunto e matando os seus demônios. A cena em questão é, talvez, a mais simbólica de todo o filme porque coloca Tony e Susan em situações opostas: enquanto o primeiro está morrendo, a segunda, emergindo de dentro da banheira, está renascendo. Na cena final, Susan está esperando pelo ex-marido mas Edward não aparece, já que não restou nada do relacionamento para ele. Para ela, no entanto, uma nova vida de descobertas está apenas começando. O tratamento da imagem que antes era pálido e remetia a uma provável depressão, se torna quente e estimulante. O close final em seu rosto não deixa dúvidas: Susan finalmente caiu na real.

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