Nos últimos dias, rodou na internet a foto de Omran Daqneesh, menino sírio de 5 anos sujo de sangue e poeira após um bombardeio em Aleppo. Em tempos líquidos, o sofrimento do Outro (e mais que isso, nossa empatia perante o sofrimento) também se apresenta como matéria volátil. Encontramos áreas com alto índice de violência espalhadas por todos os continentes, bairros que às vezes são mais perigosos que zonas de guerra. Entende-se aqui “perigoso” ou “violento” como locais com alto índice de homicídios.

Morte.

Assassinato.

O tão temível fim.
Mas se não fosse por essa pausa dramática, mais uma vez leríamos palavras com significados e sentidos terríveis de forma cotidiana, banal. Vivemos em uma época onde atos cruéis e sangrentos acontecem todos os dias, mas acabamos por nos importar com os quais chegam a nossa timeline. Orlando, Paris e Bruxelas são exemplos de um compadecimento distante, a primeira vista, até nobre. “Todos-os-seres-humanos-têm-o-mesmo-valor-não-importa-onde” soa como um mantra interno, que nos dá algum tipo de esperança na sociedade. Então, colocamos um filtro na nossa foto de perfil, compartilhamos uma Hashtag, e por um instante, nos sentimos justos, verdadeiramente humanos.

A Síria está em colapso há 5 anos, mas foi necessário ver o choque e trauma visíveis no olhar de Omran Daqneesh (ou da trágica foto do corpo de Aylan Kurdi, menino sírio que boiou até uma praia da Turquia) para nos consternarmos. Crianças em estado de sofrimento comovem a maioria das pessoas. Se não fossem por essas duas fotos, talvez, não estaríamos nada conectados sobre o que acontece na Síria. Sobre os milhões de mortos. Milhões.

Dito isso, vale lembrar que em 2014, houveram 59.627 mil HOMICÍDIOS no Brasil. No mundo, isso representou 10% de todos os homicídios do planeta. A média de 29,1 para cada grupo de 100 mil habitantes foi a maior já registrada na história do país. Comparar números de mortos me parece mórbido demais. E sobre isso, não nos consternamos. Porque se nos importássemos de fato, estaríamos exaustos da depressão que sentiríamos. Não existem filtros ou Hashtags suficientes para as mortes do tráfico de drogas, nem para a violência policial, nem pra violência doméstica, ou para os estupros. O Capão Redondo já foi considerado o bairro mais perigoso do planeta, e eu ainda não vi ninguém compartilhando #JeSuisCapão. A empatia que mostramos nas redes sociais é preguiçosa, baseia-se na lei do mínimo esforço, junto com um distanciamento enorme do que de fato acontece, na situação em voga, e no mundo como um todo. “Tá aqui aquela pena que todo mundo tem que sentir de alguém”. #JeSuis? Eu Sou? Eu realmente estou me colocando no lugar daqueles em que me refiro? Em tempos tão líquidos, é preciso solidificar o que nos faz humanos, não basta ganhar like.

 

Fonte:

Atlas da Violência 2016

Ipea e FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública)

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