Um único dia foi suficiente para destruir toda a narrativa construída por intelectuais progressistas ao longo dos últimos 13 anos. O baque foi pesado e a esquerda está perdida.

Que as perspectivas eram boas para João Dória ninguém tinha dúvidas antes do último domingo começar. As pesquisas já indicavam. Mas alguém acreditava que ele iria levar a Prefeitura já no primeiro turno? Bem, esse que vos escreve já considerava essa possibilidade quando o Datafolha lhe deu 44% das intenções de votos e 20% para o Prefeito derrotado Fernando Haddad.

Depois destes números, começou a entrar em processo as migrações de votos úteis. De um lado os eleitores que não queriam que o PT e Fernando Haddad continuassem por mais 4 anos, mas votariam ou em Russomano ou em Marta, estes, ao verem a possibilidade do atual Prefeito ir para o segundo turno e do empresário liquidar a fatura já no domingo, debandaram quase que instantaneamente destes dois candidatos para João Dória. Seus votos não eram ideológicos, eram por mudança. Do outro lado, aqueles que haviam gostado da gestão de Fernando Haddad mas achavam que ele não havia sido suficientemente progressista – uma ala mais radical a esquerda – ao se deparar com a possibilidade dele chegar ao segundo turno abandonaram Luiza Erundina e passaram a defender o voto útil no candidato petista.

Finalizada a apuração dos votos na noite de domingo uma coisa ficou provada: há bem mais gente que rejeita o prefeito tranquilão do que gente que viu algum bem em sua administração.

Em outro artigo que escrevemos aqui dias antes das eleições – segue link aos interessados: http://theglobalp.com.br/o-adeus-do-pintor-de-vias-e-o-fim-da-inquisicao-politicamente-correta/ – já havíamos dito que São Paulo diria um grandíssimo não a Fernando Haddad, e assim o faria pois aqueles que o elegeram em 2012 foram os menos beneficiados: a periferia foi esquecida em detrimento daquela minoria dos bairros de classe média alta que elogiavam sua gestão. Aquela esquerda gourmet que era beneficiada pelo prefeito e  que discursava nas redes sociais como que seus interesses mesquinhos fossem prioritários para toda a cidade.

Bem, as ciclofaixas esburacadas e mal planejadas e a famigerada indústria da multa criada pelo prefeito parece que não foram tão bem recebidas na periferia. De 58 distritos, João Dória ganhou em 56 e onde perdeu, no extremo da zona sul, quem ganhou foi Marta e Haddad ficou em terceiro ou quarto. O futuro ex-prefeito foi bem mesmo em Pinheiros, a terra santa das ciclovias paulistanas e dos jovens que rejeitam a ideologia dos pais. A periferia se identificou mais com a imagem do candidato que se auto intitulou trabalhador do que com o prefeito dos saraus e da cultura hipster. Quem mora a 30km do local de trabalho não está tão interessado em incentivos para ir trabalhar de bicicleta, prefere ter posto de saúde funcionando ali perto e mais emprego sendo gerado a alguns quarteirões de sua casa. Esse cidadão também está pouco interessado na Paulista fechada de domingo, ele mora muito longe de lá pra isso ter alguma relevância na sua vida. Se as velocidades diminuíram? Pouco importa, ele quer chegar logo em casa. Se o motorista de ônibus for a 90km/h e ele chegar em casa mais rápido, melhor.

A narrativa foi destruída. Aquele cinturão vermelho ao redor da cidade que os teóricos diziam existir na verdade não existe. A periferia não vota por ideologia, vota por mudança, vota por melhores condições e mais do que isso, ela odeia ser enganada como foi na campanha de 2012. A resposta veio domingo.

As intervenções do executivo municipal na funcionalidade da cidade foi muito mal recebida nos extremos da cidade. Aquele radar pegadinha prejudica muito mais aquela família que tem um carro popular e vai visitar um parente em Parelheiros de Domingo do que o motorista de um Ford Fusion, gerente de alguma multinacional localizada na Faria Lima que vai continuar andando acima da velocidade não importa quantos radares se coloquem na cidade. Ver o custo de uma ciclovia enquanto que não havia remédios no posto de saúde na Zona Leste parece que não caiu tão bem assim.

Esta eleição mostrou que tudo que a esquerda achou que entendia da classe trabalhadora era um mito. Demonstrou na prática que os debates dentro das universidades ficaram apenas dentro da faculdade e que a ideologia serviu apenas os ideólogos e não os que a ideologia se propunha ajudar. Em algum momento a esquerda passou a acreditar que magicamente a periferia queria uma cidade mais “humana”, mais sarau nas praças, mais avenida Paulista aberta, mais justiça social. Começaram a discursar para o espelho, apenas para seus iguais. O estudante de sociologia da PUC ia repensar a cidade em debates onde todo mundo concordava com ele, a periferia deve querer isso também, não é possível que tanta gente pense tão igual e pertença a mesma classe social. Nunca o clichê “quem gosta de pobreza é intelectual de esquerda” foi tão real quanto nas eleições municipais de 2016.

Este completo descolamento da realidade idealizado por uma elite que se pretende detentora da moral e dos bons costumes parece não ter acabado após as eleições. Culpam a alienação do paulistano, culpam a desinformação, culpam a Lava Jato, culpam até o Papa por seu fracasso. São incapazes de admitir seus erros.

A periferia não quer esmolas, quer condições de crescer, quer condições de consumir, quer condições de dar uma vida melhor para seus filhos. Quem se mata de trabalhar e vê de perto a falta de saneamento, de saúde e que não consegue se tratar no São Camilo quando fica gripado preferiu apostar na imagem de um homem que exaltou o trabalho, que exaltou a redução de gastos da cidade e a privatização de ativos não essenciais para seu funcionamento. Preferiu apostar no candidato que não teve medo do politicamente correto e disse que as marginais voltarão a ser 90km/h. Um candidato que apesar de rico, se identificava mais com a periferia do que aquela gente que anda com bicicleta emprestada de Banco no domingo e critica a especulação bancária na aula de economia na segunda-feira.

 Talvez o que mais assuste a esquerda nestas eleições é que mais da metade da cidade deu seu salvo conduto para um candidato que defendia uma política mais neoliberal e que nunca escondeu sua vontade de privatizar. O que mais assusta os derrotados é o abandono dos eleitores que um dia julgaram possuir. Deviam ter se atentado mais as letras do Racionais durante a virada Cultural, principalmente aquela que se chama “A vida é desafio” quando diz: “acredito que o sonho de todo o pobre é ser rico”.

Está na hora de parar de culpar os mensageiros pela mensagem e assumir que Haddad foi um péssimo Prefeito para a maior parte da cidade e que suas políticas não contemplaram aqueles que mais precisavam, contemplou apenas aquele nicho de esquerda gourmet o qual ele se propôs a agradar desde o começo.

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