O papel do jornalista em um momento de tragédia, como a que aconteceu nesta terça-feira, 29, é difícil. É tênue a linha entre o mau gosto e a cobertura jornalística em si. Claro que o caso do Catraca Livre passou dos limites, claro que não existe postar uma galeria de “pessoas em seu último dia de vida” e justificar dizendo que é uma “maneira de apresentar diferentes fatos”. Isso não é jornalismo, isso é falta de respeito.

Além de todos os jogadores e da comissão técnica, morreram no voo jornalistas, companheiros de profissão que estavam viajando para cumprir sua profissão. Foi um dia triste para o jornalismo em mais de um sentido.

No entanto, o incidente fatal e sua relação com o jornalismo nos dão uma oportunidade de repensar. Aos jornalistas, repensar o que estamos fazendo, que pautas estamos sugerindo, até que ponto estamos dispostos a ir pelo clique, pela audiência? As métricas são cobradas no fim do mês (e muito), mas até que ponto devemos ir para chegar nos tão almejados números?

Quando Domingos Montagner morreu afogado no Velho Chico, não só o Catraca Livre, mas vários outros portais, divulgaram o vídeo de Camila Pitanga chorando, inconsolável, de biquini. Por quê? Porque queriam os cliques de quem queria ver o vídeo. E as pessoas queriam ver o vídeo.

Ao mesmo tempo, os leitores precisam pensar no que estão clicando. De dentro de uma redação, observamos que as matérias mais elaboradas, com apuração completa, com temas complexos e interessantes, estas não dão clique, não dão audiência. Matéria sobre bichinhos fofos? Sobre a Titi, filha de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso? Bombam.

Se o jornalismo está mais vazio? Sim, é verdade. Temos muitas notícias bobas diariamente. Grande parte das notícias vão atrás da tão almejada “audiência”, mas isso é uma via de mão dupla. É muito fácil para os leitores falarem mal do trabalho do profissional de dentro da redação, o que falta é dar relevância para conteúdo qualificado.  A “lei da oferta e demanda” também funciona no jornalismo.

No entanto, pelo menos essas notinhas “vazias” não desrespeitam ninguém. E talvez esse seja mesmo o limite: o desrespeito. Ninguém gosta de ver manchetes nas redes sociais que não dão notícia, como “Time da série A quer contratar Schweinsteiger”. Queremos notícias. Os portais, cliques, e ficamos nesse impasse. Mas, o que não pode faltar é respeito, bom senso, noção. Nós, jornalistas, fazemos muito pelo clique, mas não podemos fazer tudo. Não podemos deixar a ética de lado, o compromisso com a notícia, com as pessoas. Nunca podemos esquecer que, desde o começo, a ideia do jornalismo é humanizar a notícia.

Hoje, vendo notícias durante todo o dia, pude acompanhar diversas coberturas com muita qualidade, por isso não acredito que o jornalismo esteja perdido. Na CBN, Milton Jung, claramente abalado, tomava todo cuidado do mundo para não dar más notícias sem confirmação. Humano, sensibilizado, Galvão Bueno mal conseguia completar suas frases.

Na internet, a cobertura foi boa da parte de diversos portais – e há uma larga vantagem na internet: há tempo para pensar, pelo menos muito mais do que no ao vivo. Por isso, é importante saber aproveitar essa oportunidade e, em vez de postar qualquer coisa pelos cliques, elaborar algo que seja realmente construtivo.

Agora, com os erros já cometidos e as desculpas pouco efetivas, é hora de olhar para frente de repensar. Falta, ao jornalismo, a humanidade. Falta, ao leitor, a vontade de ler conteúdo de qualidade.

Por fim, toda a solidariedade às famílias das vítimas. #forçachape

28
2

Escrever artigo sobre este tema

O The Global P. é uma plataforma aberta de debate. Os textos nele postados não refletem a opinião do site. Você tem uma opinião diferente da desse autor? Escreva o seu próprio artigo! Clique aqui e saiba mais.