O cultuado diretor alemão Werner Herzog aceitou o convite da NetScout para fazer um documentário sobre a Internet. O que no enorme universo virtual poderia interessar ao diretor de Fitzcarraldo? Vídeos de bichinhos? Jogos online? Cyber-anonimato? Redes sociais? Bom, nenhum dos anteriores exatamente, mas há uma variedade de cenários um tanto quanto inusitados e até digressivos.

O filme começa do começo: a criação da internet. Usando do formato de entrevistas, pioneiros da internet contam como a rede veio a ser. Senhorezinhos de cabelos brancos dão seus testemunhos entusiasmados de quem viu uma revolução silenciosa acontecer, anedotas do tipo “o nome de todo mundo que estava na internet estava num caderno fino”. Arquivo televisivo é usado para mostrar como o que é cotidiano hoje já foi considerado ficção científica no passado. Ted Nelson, um desses desbravadores, traz uma imagem poética das representações e interconexões comparadas à água. É isso que Herzog quer e (é provável) também o que o espectador quer: tirar desses caras nerds descrições menos técnicas e mais reflexões sobre a própria essência deste ente.

“A internet sonha dela mesma?”, pergunta o diretor. Essas indagações instigantes e jocosas funcionam bem. Quando o filme mostra uma equipe de cilíndricos robôs autônomos jogadores de futebol, a voz trovejante diz “Você o ama?” “Sim, nós amamos o robô.”, responde o jovem cientista computacional segurando o robozinho, com um sorriso de um menino que vê seu jogador de futebol favorito (ou seria de um pai que vê seu filho jogando uma partida?).

Além das máquinas esportistas, são vislumbrados os carros que se dirigem, inteligência artificial, colaboração e geração de conhecimento, a vida em Marte e outras possibilidades que acabam se afastando um pouco do cerne do que usualmente vem à cabeça quando se ouve “mundo conectado”. E isso é ótimo. Não se trata de uma redação do ENEM ou coisa do gênero, não tem fuga do tema porque ele cria o tema. Colchas de retalho são charmosas.

Aos 74 anos e não sendo muito familiarizado com o assunto, Herzog tem de escolher o que explorar nesse oceano. Se coubesse à minha avó, também idosa e tecnofóbica, fazer um trabalho sobre o lado feio da internet, ela focaria nos Quatro Cavaleiros do Infoapocalipse: pornografia infantil, terrorismo, guerra às drogas e lavagem de dinheiro. Ele está mais preocupado com erupções solares, pessoas hipersensíveis a radiação, dependência eletrônica e exposição da vida privada. Para mostrar o drama de uma família que sofreu com fotos que não deveriam ser reveladas circulando pela web, ele enquadra com uma simetria, uma luz, um contraste entre o preto das roupas de luto e os muffins e croissants. Minha avó não é Werner Herzog.

No balanço geral, a mensagem que se leva pode ser tanto de entusiasmo com as possibilidades que se abrem ou de terror absoluto. Do homem avançando para a libertação do mundo físico ou para o fim da própria humanidade.

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