Lolita é descrita por seu algoz, Humbert Humbert, como uma ninfeta, criatura sedutora e diabólica. Ao comentar a publicação do seu romance, Vladimir Nabokov se comparou à experiência real de um gorila que aprendeu a desenhar e começou pelas grades da própria jaula. O mais provável é que o autor russo estivesse se referindo aos limites da linguagem (a impossibilidade de alcançar, com palavras, o indizível). O livro foi considerado “a única história de amor convincente do século vinte” e virou filme de  Stanley Kubrick.

Na representação original e surpreendente da relação tórrida escrita por Nabokov, em um dos teatros da Praça Roosevelt (hotspot das artes dramáticas paulistanas), o trio Gabriela Barretto, Larte Mello e Cris Lozano fazem jus à pesquisa da diretora Heloísa Cardoso, que se dedicou aos estudos sobre Lolita na Universidade de Essex, em Londres.

Humbert entra no palco e aponta para um monte de sorvete, convidando o “júri” a observar aquele “emaranhado de espinhos”. É acusado de assassinato. Será culpado? Terá o álibi da conduta passional? O amor por Dolores, a Lolita, sua enteada de 12 anos, o levou a matar a própria esposa. Livre da mulher, mas não da culpa, Humbert leva a menina embora, como escrava, para uma vida de hotéis à beira de estrada. Numa partida de pingue-pongue, Lolita está com as mãos atadas, sendo obrigada a jogar com a raquete entre os dentes. Cada vez que perde uma bola, seu algoz dita uma regra, entre elas “não contar pra ninguém”. Quando Lolita marca ponto, ganha dinheiro. Cedo ou tarde, Humbert é preso e se defende: a garota é que teria corrompido sua inocência, por tê-lo supostamente seduzido. Ele a culpa, afinal!

Gabriela Barretto desempenha uma Lolita fiel às páginas do romance. Nunca se sabe até que ponto sua timidez é malícia ou recato. Com auxílio de elementos cênicos simples, como um batom, a atriz já madura encarna a pré-adolescente mais polêmica da história da literatura. Os trejeitos de criança e a maneira como Lolita se relaciona com Humbert são extremamente convincentes, quase justificando a loucura do pedófilo – no limiar necessário à arte, que é, segundo Artaud, ação sem consequências fisiológicas (a não ser que Nabokov tenha sido realmente um pedófilo).    

Na saída do teatro, perguntei à atriz se ela considera Lolita uma história de amor. “No filme, eu chorei ao ver o estado de Humbert”, ela respondeu diante de familiares e amigos. “É difícil dizer um meio termo [entre o amor e a loucura criminosa do personagem]. Mas eu não acho que seja uma história de amor.” Na peça fica bastante evidente a monstruosidade de Humbert, o seu comportamento atroz, sempre tentando se justificar, o que no limite é machismo clássico. Sua esposa morta eventualmente ressuscita embaixo da mesa, como consciência do marido, para lembrá-lo de que ele não passa de um pedófilo assassino. E ele volta a esganá-la (a própria consciência).

Do início ao fim, alternam-se a narração obsessiva do protagonista e longos momentos de silêncio, em que os atores se valem de expressivos gestos para contar a história. Lolita mal tem falas – toda a gênese do personagem, primorosamente realizada pela Gabriela Barretto, se fundamenta nos gestos duvidosamente infantis, nas brincadeiras dúbias e expressões marcantes. Ela e a esposa do algoz surgem no palco, conforme as descrições de Humbert, em precisas coreografias. Em uma questão de minutos, os atores narram, com seus movimentos bem articulados, coisas que teriam passado ao longo de meses na vida “real” dos personagens. “Fazer isso, ligar o teatro à possibilidade da expressão pelas formas, e por tudo o que for gestos, ruídos, cores, plasticidades, etc., é devolvê-lo à sua destinação primitiva, é recolocá-lo em seu aspecto religioso e metafísico, é reconciliá-lo com o universo”, escreveu Artauld, que eu lia no metrô. Conforme a polêmica erótica caminha em direção à ruína, o sorvete vai derretendo em cima da mesa.

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Na saída da estreia, um transeunte pediu licença para o público na porta do teatro. “Com licença, vou passar”, ele disse, esperando se afastarem. “Me respeitem”, acrescentou. As pessoas ficaram sem entender aquilo. Parece que o teatro, na maior metrópole da América Latina, ainda é considerado algo indecente, coisa do capeta. O que diria Nabokov?   

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