Não, você não pode. A máxima mais importante sobre a liberdade é que “a sua liberdade termina onde começa a do outro”. Teoricamente, você pode sair pela rua apontando os defeitos das pessoas que passarem por você, no entanto, isso é completamente desagradável, porque fere a liberdade do outro, de não querer que alguém desconhecido fale coisas ruins sobre ela. Na esfera pessoal sempre funcionou assim. O espaço do outro é do outro, e ele deve ser respeitado, ou seja, você pode fazer o que quiser com sua vida, mas a partir do momento que suas decisões influenciam diretamente uma outra pessoa, é preciso pensar duas vezes – e não adianta usar a sua tal de “liberdade” como desculpa.

A verdade é que você nunca pode oprimir ninguém em paz. O que mudou foi a internet. Na internet, as pessoas perdem a vergonha, o que pode ser usado para o bem e para o mal. Quando se usa o meio digital como disfarce para oprimir alguém, a questão se torna delicada. Como a internet é um advento novo – chegado no Brasil há pouco mais de 20 anos, mas que só se popularizou recentemente -, as regras começam a se fazer agora. O chamado “politicamente correto” é o bom senso que começa a dar as caras nas redes sociais.

Fazer piada com homossexuais, com mulheres, com negros, com muçulmanos, com gordos ou qualquer outra minoria e dizer “mas não pode nem mais fazer brincadeira” é a mesma coisa que perguntar “não posso nem mais oprimir os outros em paz?”. Não. Você não pode oprimir as pessoas. A partir do momento em que uma “piada inofensiva” ofende alguém, ela não é só uma brincadeira, ela é um ataque, ela é um meio de magoar outra pessoa.

No Brasil, um país com pouquíssima regras em relação às minorias, racismo é crime. Então, o que leva uma pessoa a achar que, na internet, ela pode se sentir a vontade para ser racista e ofender pessoas negras? O anonimato e a impunidade. Por isso, o “politicamente correto” está aí, para ajudar a impor limites em “brincadeiras” que, até agora, não tinham limites.

O tal do “politicamente correto” talvez não precisasse existir se cada um se colocasse no lugar do outro. Será que uma pessoa que faz piada com muçulmanos, chamando-os de terroristas, por exemplo, pensa em como se ele sentiria se alguém falasse a mesma coisa de sua religião? Provavelmente não. Como consequência, surgiu a vigilância do politicamente correto.

E o politicamente correto, tem limite? Acredito que sim. Talvez o limite seja no momento em que começamos a ver problemas onde eles não existem. Um exemplo foi a recente adoção de uma criança africana por Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. O casal foi muito atacado e criticado por não terem adotado uma criança brasileira. Mesmo que a filha do casal morasse no país mais pobre do mundo, mesmo que o ato de adotar uma criança, independente da nacionalidade, seja algo lindo. Acredito que esse é um exemplo em que a linha tênue entre não ser um idiota e pegar no pé foi cruzada.

Um tema que divide opiniões é em relação ao politicamente correto é o humor. Em uma entrevista à blogueira fitness Gabriela Pugliesi, Fábio Porchat afirma que ter cuidado com as piadas que faz é um recurso positivo para ele, porque é obrigado a pensar mais de uma vez nas piadas que faz. Isso resume quase tudo: é preciso pensar duas vezes.

É ÓBVIO que não é legal mandar uma mulher ir lavar louça, é óbvio que não é legal chamar um negro de macaco, é óbvio que não é legal ofender as pessoas por suas crenças, orientações sexuais, gênero, etc. Mas a internet esconde as pessoas, que não tem medo de atacar minorias.  

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