Desde antes de assumir a prefeitura, João Dória (PSDB) deixou claro que empreenderia uma cruzada contra os pichadores. No curso desse primeiro mês de mandato, começaram a aparecer as primeiras propostas de ação que Dória batizou de Cidade Linda.

            De um lado, o projeto envolve troca de mobiliário urbano, desobstrução de bocas de lobo, poda de árvores; de outro, veremos a instalação de câmeras em volta de pichadores, vendedores ambulantes e moradores de rua.

            Muito além de uma singela campanha de decoração da cidade, Dória está colocando em prática o velho modelo de “embelezamento urbano” higienista que envolve uma verdadeira caça àqueles que são cuidadosamente rebaixados à alcunha de “marginalizados”: o jovem excluído, o mendigo invisível, o craqueiro inconveniente, o trabalhador informal. Eles não têm lugar na cidade-empresa de Dória. Eles são os “anormais” do prefeito-playboy.

            Enquanto isso, nas redes sociais e na mídia, assistimos a um debate totalmente deslocado sobre o valor estético da pichação. “Você é a favor ou contra? É bonito ou feio?” e muitas outras enquetes parecidas. Qual é o sentido dessas perguntas?

            Em vez disso, devíamos nos interrogar coisas mais importantes: por que esses critérios estéticos elitistas só são usados para legitimar uma caça àqueles que são vistos como inimigos da “boa sociedade”, dos “cidadãos de bem”?

            Por que em São Paulo, você pode construir atrocidades como o Minhocão; arrendar áreas públicas, cercá-las e destiná-las a uso privado ou leiloar terrenos com restos de mata atlântica sem nenhum debate relevante com a comunidade e ainda colocar uma placa, orgulhoso, com seu nome e o de sua empresa sem ser considerado um criminoso, um marginal – enquanto jovens vão para a cadeia por tingir fachadas?

            Por que em São Paulo você pode ser proprietário de prédios de 10 andares caindo aos pedaços que ficam anos sem qualquer uso sem que achem que sua propriedade em frangalhos deixa a cidade mais feia? Ou mais perigosa, aliás.

            A resposta é simples: as pessoas interessadas nesses desastres do urbanismo que fizeram de São Paulo um retalho esquizofrênico de trambolhos não cabem na mira dos higienistas, dos embelezadores. Esses interessados podem ser falidos, mas não são marginais.

            Por isso, quando te perguntarem se você é a favor da pichação ou não por critérios meramente estéticos, olhe para a cidade a sua volta e considere quem mais poderia ir para a cela com o jovem pobre.

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