I. Um Brasil de poucas universidades

              Em sua história milenar, a instituição universitária foi se transformando de acordo com as diferentes demandas e perspectivas dos grupos sociais nela interessados. Em cada época possuiu especificidades e historicidade compreensíveis à luz dos interesses sociais, econômicos, teológicos, científicos, bélicos etc. nela investidos. Ainda que sua história no Brasil seja bastante recente – a primeira instituição a gozar desse status foi a de Manaus, em 1909 –, os embates, reformas e continuidades em torno do ensino superior em nosso país são reveladores do processo de formação e conflitos no mesmo.

            A ausência é um desses aspectos reveladores. A implantação de uma instituição universitária não parece ter sido uma questão de primeira ordem para o governo colonial dos dois primeiros séculos de conquista portuguesa. Somente ao final do século XVIII – ou seja, tendo o açúcar e o ouro definido mais claramente o papel importante do Brasil no mapa do império português – que o ensino passa a se tornar um tópico abordável. Se os fracassados inconfidentes, por um lado, reivindicavam uma instituição dessa natureza, por outro, foi justamente na última década do século XVIII que começam a se expandir as poucas instituições de engenharia e desenho militar. Não é difícil imaginar que demandas ditavam a fundação da Real Academia de Fortificação e Desenho (1792): a formação de alguns poucos especialistas com os conhecimentos necessários à administração técnica do aparato militar e arquitetônico necessário à administração da colônia.

 

              II. Universidade para poucos brasileiros: o bacharelismo

              Durante o século XIX continuou, de qualquer forma, a reprodução do sistema produtivo do velho sistema colonial aplicado ao ensino. Se o Brasil exportava matéria-prima que era manufaturada na Europa e retornava à periferia do império como mercadoria importada, de acordo com a mesma lógica, nossa terra enviava seus filhos mais abastados que iam a Coimbra estudar (mais tarde Paris) e voltavam como legisladores, médicos e governantes qualificados.

               O século XIX, que trouxe a Independência, o Império e a República, exigiu uma nova camada de burgueses aptos a servir uma nação em formação e expansão. E, como por tantos séculos de nossa história educação significou catequização, especialização intelectual e científica não poderiam dizer outra coisa que não status nas cidades crescentes do Brasil do século de Machado de Assis. Remonta a esse contexto o tradicional bacharelismo brasileiro que ainda marca profundamente nossa sociedade: um anel de bacharel sempre brilhou no dedo de bem poucos.

 

            III. Crise do bacharelismo brasileiro tradicional no lulismo

            Com um maior ou menor grau de autoilusão, bacharelar ainda significa se posicionar “de verdade” na vida. Nos últimos anos, porém, algumas mudanças vieram causar os primeiros curto-circuitos nesse sistema. As pautas em voga na era do lulismo, a democratização e a inserção social entendidas como ampliação do acesso ao consumo às classes mais baixas, atingiu a fundo as instituições de ensino superior, tanto públicas como privadas.

            Nas públicas, vimos uma expansão sem precedentes (e por vezes desordenada) das federais e a criação de ações afirmativas cada vez mais abrangentes. Nas privadas, observou-se um boom pela abertura de crédito e a implantação PROUNI, que abriu brechas de acesso à nova classe média baixa – tradicionalmente excluída da Universidade e “cliente” histórica dos cursos técnicos. As públicas tentam lançar uma olhadela aos pobres; as privadas veem um nicho de consumo de ensino para além dos ricos.

            Muitos ricos e alguns pobres nas universidades públicas; muitos pobres e alguns ricos nas universidades privadas. Essa fórmula resumiria grosseiramente a configuração do sistema universitário em nosso país no momento em que “inclusão” e “democratização” entram em discussão no debate sobre o ensino superior.

 

            IV. Conclusão: Ponte para o futuro (com escala no passado)?

            Discussão? Não. É uma verdadeira luta, pois as resistências à ampliação do acesso não são poucas nem amigáveis. De um lado, os opositores às ações afirmativas racionalizam de mil formas o mesmo e único argumento pseudo-meritocrático: a universidade deve ser um privilégio dos mais aptos a investir. E pobre não tem capital: vende trabalho.

            Por outro lado, num pano de fundo atualíssimo, o governo ‘autointerinizado’ por desvio de poder já indicou que irá frear a expansão do ensino público e ampliar o acesso (crédito) para o ensino privado. É a Ponte para o Futuro com escala no passado, do PMBD. Logo, logo, se depender deles, a SanFran, a Poli, a faculdade de direito de Pernambuco, a de Medicina da UFRJ e tantas outras terão espaço para quem, por “mérito”, “investiu” mais, ou seja quem nasceu em berço mais esplêndido.

            Já estamos habituados a essa configuração bizantina de distribuição de conhecimento. Será que nossa saída será mais original dessa vez?

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