Nos tempos modernos, quase todo debate é impregnado de ideologia e raramente debatemos os fatos.

Isso ficou muito claro para mim na polêmica do Quitandinha, quando uma garota denunciou o bar da Vila Madalena no facebook dizendo que foi assediada dentro do estabelecimento e que não teve nenhum suporte do mesmo. O post-denúncia viralizou e a partir daí se iniciou um debate fervoroso entre aqueles que defendiam a garota e aqueles que defendiam o bar.

Analisando as provas existentes, percebe-se que tínhamos pouca informação do que de fato aconteceu. Seria muito difícil para um tribunal julgar o caso baseado em um relato de facebook e um vídeo, divulgado pelo bar, todo editado.

Sem conhecer a garota, o assediador ou os funcionários do Quitandinha e ,sendo assim, sem confiar cegamente em qualquer um deles, consigo pensar em inúmeras situações que podem ter acontecido naquela noite: a garota foi de fato assediada e o bar não fez nada; a garota fingiu o assédio para tirar uma graninha do estabelecimento; a garota e o bar planejaram tudo como uma campanha de marketing (bem ruim por sinal); um boto entrou no Quitandinha, paquerou a moça, roubou o seu celular e publicou o relato mentiroso no Facebook.



Enfim, o que se viu, no fundo, foi uma guerra de ideologias: os que apoiam a luta feminista contra aqueles que não a apoiam. Mas quando simplificamos dessa forma um evento como esse, nos tornamos míopes quanto ao fato de que pessoas não são representações perfeitas de ideologias, são muito mais complexas e cheias de facetas que isso. Quando instrumentalizamos o debate, estamos também instrumentalizando a realidade e a dor das pessoas.

Ferramentas como o Facebook são fundamentais para a democratização da informação, mas quando ganhamos esse poder de atingir tantas pessoas, também assumimos a responsabilidade de checar a nossa informação e não disseminar mentiras. Para dialogar mais, deveríamos ter menos certezas e aceitar que, muitas vezes, como no caso do Quitandinha, não sabemos toda a verdade.

 

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