Primeiramente, é importante diferenciarmos correlação de causalidade. O primeiro se refere ao comportamento de duas variáveis diferentes e “para que lado” essas se destinam. Podemos ter uma correlação positiva, em que as variáveis andam lado a lado, ou uma correlação negativa, em que cada uma das variáveis vai em direção oposta a outra. Causalidade, por outro lado, implica na relação direta entre as duas variáveis, ou seja, tendo “a” e “b”, “a” causaria as variações de “b”. Resumindo a frase mais importante acerca do tema: correlação não implica necessariamente em causalidade. Existem inúmeros exemplos dessa situação em pesquisas americanas: quanto mais sorvetes em praias, mais ataques de tubarão; o aumento do número de sorvetes em várias cidades foi acompanhado por aumento no número de homicídios; a receita total gerada por instalações de ski tem correlação de 0.97 com o número de pessoas que morrem após ficarem embaraçados em sua roupa de cama. São exemplos absurdos mas que mostram bem como nem sempre dois eventos que variam da mesma forma tem uma implicação causal entre eles.

É exatamente esse ponto que deve ser pensado na questão das velocidades nas marginais. A maioria das pessoas estão revoltadas com a afirmação de Dória sobre aumentar as velocidades das marginais, mas talvez ele esteja certo.

Explico: não se sabe SE, e QUANTO, da redução das mortes no trânsito foram causadas pela redução da velocidade nas marginais. Existem apenas dados de que o número de mortes caiu. Entretanto, não existe nenhum estudo que mostre a causalidade entre os dois fatos. E digo mais: a tendência de queda no número de mortes no trânsito em SP existe faz alguns governos, o que aumenta a relevância dessa visão de que talvez não foi a redução da velocidade que reduziu o número de mortes.

Existe ainda um segundo ponto muito mais polêmico. Mesmo que a redução da velocidade tenha salvado vidas, a pergunta a ser feita é: quanto essas vidas custarão a sociedade, dado que talvez a queda na velocidade tenha sido ainda maior? A vida tem valor monetário. Se não o tivesse, o governo federal iria reduzir para 60 km/h as velocidades nas estradas, visto que no nosso país morrem cerca de 41 mil pessoas todos anos. Mas não faz isso porque o custo para a economia seria algo absurdo.

Se eu fosse Dória acho que não aumentaria a velocidade de cara sem um estudo prévio, mas, existe uma alta probabilidade de que ele aumente a velocidade e o número de mortes continue caindo.

Esse é um dos maiores erros do Brasil: fazer política pública com base no achismo, sem qualquer tipo de validação empírica para ver se os resultados são realmente benéficos para a sociedade.

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