A cidade de São Paulo vive, agora, seus últimos meses sob a gestão de Fernando Haddad (PT), que tentou sua reeleição neste último domingo sem qualquer sinal de êxito. Para surpresa de muitos, contudo, tornou-se o novo prefeito eleito de São Paulo alguém que não tem histórico e tradição na política partidária tradicional brasileira. João Dória (PSDB), empresário e criador do Grupo Doria, que abarca seis grandes organizações, foi eleito com 53,29% dos votos válidos já no primeiro turno. Vence a corrida eleitoral paulistana uma figura até então nunca pensada ou vista como possível candidatura dentre os quadros do PSDB.

Ganhou, pois, um candidato que saiu com menos de 10% das intenções de voto nas pesquisas eleitorais no início da campanha e conquistou o voto de mais de 3 milhões de paulistanos e paulistanas que foram às urnas. Um milagre inexplicável? Certamente não.

O que se precisa entender para compreender a eleição de João Dória não como um milagre, mas um fenômeno esperado, ampara-se em um contexto bastante amplo da sociedade e da política brasileira. Afinal, 2016 coloca-se no centro da Operação Lava Jato, da falta de financiamento privado de empresas nas campanhas, da maior crise econômica brasileira, da impopular gestão de Haddad e de muita descrença popular na política.

Em primeiro lugar, contextualizando São Paulo no quadro nacional, vale dizer: as decisões tomadas na República de Curitiba influenciam diretamente toda a política federal, estadual e municipal. Com delações, provas e prisões, foram poucas as figuras tradicionais da política brasileira a não serem arranhadas. O Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, envolvido diretamente em um projeto de corrupção descoberto pela Lava Jato, colocou-se como um grande obstáculo – enquanto legenda – para seus candidatos. Não é à toa que muitos petistas preferiram optar pelo verde, azul e branco na hora de colorir seus santinhos e sua propaganda política. Ainda assim, a carga negativa que a sigla trouxe não perdoou: de 630 prefeituras conquistadas em 2012, o PT viu sua abrangência cair em 60%, levando apenas 256 municípios.

Enquanto os petistas perderam, ganharam tamanho o PSDB (+15,6%), o PDT (+9,9%), o PSD (+8,9%) e o PCdoB (+56,9%), situação em que se consolidam, em ordem de conquistas, o PMDB (1.028 municípios), o PSDB (793 municípios) e o PSD (539 municípios). E a cidade de São Paulo sentiu os reflexos dessa varredura em suas intenções de voto para a Prefeitura: Fernando Haddad (PT) conquistou 16,7% do eleitorado e passou longe de conseguir desbancar o tucano.

Em segundo lugar, salienta-se: faltou dinheiro para quase todos nesta corrida. Com a proibição das doações empresariais para campanhas políticas, foram favorecidos candidatos que já possuíam boas condições financeiras. Afinal, ainda que a alternativa de caixa 2 pudesse parecer uma obviedade com a proibição de doações, deve-se considerar que, em tempos de Lava Jato, pouquíssimas empresas estariam dispostas a correr esse risco. Trata-se de um ocorrido atípico, portanto, que só não resultou em muito dinheiro passando por baixos dos panos porque Sérgio Moro e Deltan Dallagnol mostram estar de olho. Por isso, inclusive, não se pode garantir êxito de tal legislação para sempre: o momento é que ajudou.

Mediante tais restrições, João Dória certamente acabou sendo favorecido: seu patrimônio declarado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi de R$ 179,7 milhões. Sua campanha custou R$ 13,57 milhões, dos quais R$ 2,9 saíram diretamente de seu bolso, conforme declarado ao TSE. Mas não podemos concluir que a preferência do eleitorado paulistano foi pautada pela verba de campanha, porque a candidatura de Fernando Haddad também não saiu barata: custou R$ 11,79 milhões e não resultou em proporções de voto similares com as proporções de orçamento. Marta Suplicy (PMDB) gastou R$ 3,89 milhões, e Celso Russomano (PRB) gastou R$ 3,91 milhões.

Em terceiro lugar, como fator essencial para compreender o sucesso de Dória, tem-se a maior crise econômica brasileira, criada, gestada e gerida dos gabinetes do Ministério da Fazenda do então governo Dilma. A população e, em especial o varejo, passou a considerar o desemprego como um medo constante em sua rotina. O comércio varejista paulistano, por exemplo, registrou 14 meses consecutivos de queda, e estava precisando de propostas que facilitassem a abertura de novos negócios, a geração de empregos e a geração de renda urgentemente. Afinal, o Brasil coloca-se em 116º lugar quanto à facilidade de se fazer negócios no país, considerando uma gama de 189 países dos dados de 2015 do Banco Mundial. A abertura de negócios está na 174ª posição, e a obtenção de alvarás e licenças para funcionamento, na 169ª posição, o que representa entraves colossais para a superação da crise, dado que é quase impossível realocar investimentos e empreendimentos com facilidade no país.

João Dória, por sua vez, não perdeu a oportunidade de oferecer boas propostas para alterar essa realidade burocrática de mania cartorária e regulatória do Brasil e de São Paulo: trouxe, em seu plano de governo, por exemplo, o “Poupatempo empreendedor”, instrumento para garantir o registro de empresas dentro de 72 horas e permitir que as pessoas possam trabalhar em seus negócios o quanto antes. E é justamente o que o comerciante brasileiro sente: o Brasil não pode se dar ao luxo de impor alguns meses ao trabalhador no processo de registro de um empreendimento sem que as pessoas possam, de pronto, começar a gerar renda e emprego.

Em quarto lugar, não se pode ignorar que Fernando Haddad, atual Prefeito, alcança uma das mais altas rejeições eleitorais: 41% da população paulistana reprovam o político. Sem discutir o mérito de suas ações ou políticas para São Paulo, o fato é que boa parte do eleitorado de São Paulo abomina a chamada “indústria da multa” e vê no petista a enorme negligência com que tratou os bairros periféricos nos últimos anos. Não se trata de opinião, mas sim um fato: Dória venceu em 56 das 58 zonas eleitorais da cidade, perdendo apenas 2 para Marta Suplicy. Haddad, por sua vez, que não alcançou uma vitória sequer, teve seu melhor desempenho bem longe das periferias: foi mais bem votado em Pinheiros, bairro nobre da capital.

Em quinto e último lugar, foi notável a percepção do eleitorado quanto a figuras da política tradicional. Ao que tudo indica, um novo rosto pode parecer bastante atrativo para quem vê metade de sua renda esvaindo-se todos os meses via tributos sem que nada efetivamente mude de eleição em eleição. Dizer-se de fora da política e com uma nova perspectiva talvez tenha representado um dos principais motivos à adesão popular na candidatura do tucano, que se coloca como um gestor, e não um político.

No mais, o resto deveremos esperar para ver.

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