O massacre perpetrado pela Facção do Norte contra o PCC na penitenciária de Manaus, cuja notícia rodou, levanta questões extremamente complexas: a engenharia do sistema penitenciário brasileiro, sua função dentro do aparelho repressivo do Estado, o modo como este lida com a violência, concepções diversas de política e repressão sobre determinados corpos. Não tenho conhecimento aprofundado, nem tampouco a pretensão de neste pequeno artigo articular uma explicação totalizante acerca do ocorrido. Entretanto, cabe-se levantar algumas questões:

Violência
Talvez a proposta mais instigante para se pensar as recentes relações entre poder de mando e a morte seja do filósofo camaronês Achilles Mbembe, para quem o locus da soberania estaria na gestão da morte. As prisões brasileiras, a violência do Estado por parte de uma polícia amplamente militarizada, são engrenagens que caminham juntas na criação de um estado de guerra civil tornado norma. Ambas, polícia e penitenciária, operam juntas na criminalização da pobreza, para os quais assassinatos pela polícia e prisões sem julgamento predominam. Em que medida, para se compreender a sensação de violência generalizada na sociedade, deve-se olhar menos para a o que a mídia coloca como a violência da população civil, e mais para o principal gestor da vida e da morte, o Estado?

Narco-estado
Talvez o Brasil seja o único país no mundo em que um aliado do senador e então candidato a presidência da república Aécio Neves (o empresário Zeze Perrella) é encontrado com centenas de quilos de pasta de cocaína e continuamos nos referindo ao narcotráfico como poder paralelo. O fato do presidente Michel Temer estar tão relutante em comentar o ocorrido é também digno de dúvidas – principalmente quando a ele se refere como acidente, buscando assim eximir o Estado. Cabe perguntar se tal qual em outros países como México e da América Central não seria o momento de falarmos em um narco-estado brasileiro? Em que os verdadeiros donos do poder e beneficiários do tráfico e da violência estão em Brasília e apartamentos de luxo; verdadeiros gerentes da vida e da morte, que tem na polícia e na penitenciária seus principais suportes.

Penitenciárias privadas
Vale, por fim, também perguntarmos acerca da relação existente entre o abandono e superlotação do sistema prisional brasileiro e a chegada das prisões privadas no país (remetemos a pessoa interessada em conhecer mais sobre o assunto à reportagem feita por Paula Sacchetta para a Agência Pública, ver link aqui), para as quais quanto mais presos, maior o lucro.

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