Lá fora somos estereótipos. O povo que gosta de futebol, que come feijoada toda quarta feira, que espera o ano todo para jogar confete em janeiro ou em março. Pois bem, fomos meramente reduzidos a uma espécie de “kitsch” da América Latina, algo como simples habitantes desse grande país que, como reportou Cabral, seria o paraíso perdido. Seguindo a analogia, creio que seríamos Eva e a cobra, traiçoeira e que seduziu com suas palavras e promessas a primeira mulher de todas, seria a classe política.
   Há de se igualar um ponto (sim, nem tudo está perdido!): ninguém está satisfeito. A maioria daqueles que não foram beneficiados com viagens maravilhosas a off shores (quem não gostaria de conhecer a Suíça, por exemplo?), onde puderam esconder grande parte do capital gerado através de imoralidades, tende a não concordar com o Governo. “Dos males, o pior”, este passou a ser nosso jargão para eleger administradores públicos, ou até mesmo para se expor favorável ao impeachment de um deles, mesmo sabendo que o que viria a seguir não é “grande coisa”. É notável que mobilizações estão começando a florescer, talvez tenham apenas chegado a fase de sementes ou mudas, mas já é algo a se considerar.
Aí então retorno à minha introdução, aparentemente fora de contexto: existem brasileiros que são vegetarianos e só o aroma da feijoada os enjoa. Outros querem mais é fugir dos badalos carnavalescos. Não, não somos miniaturas idênticas que se pode comprar em lojinhas de aeroporto, somos plúrimos, pensamos diferente, rezamos para Deus (es) díspares, temos diferentes sotaques.
  Talvez seja esta a questão: acreditamos em melhoras, desejamos melhoras, mas claro, do nosso jeito.
  A reação da população quanto à crise política me remete muito a trabalhos escolares em grupo. Sabe quando você acredita que o colega está fazendo tudo errado, e urge para que sua ideia seja acolhida? Então, já pensou que seu colega pode estar crendo o mesmo em relação a seu parecer?
  Todo grupo tinha aquele “espertalhão”, que impunha suas ideias sem mais nem menos. Neste cenário de divisão ideológica, será que não estamos nos tornando este colega indesejável? Até onde nossa visão nos torna surdos e inertes? Como cantado por Raul, por que não aceitamos ser “metamorfoses ambulantes”, adequando nossas crenças ao novo?
No período escolar a professora apaziguava os conflitos, tentava fazer com que todos ouvissem e fossem ouvidos. E agora? Crescidos, formados (ou não) e enfrentando um mundo onde nós mesmos devemos atuar, quem poderá nos policiar? Quem nos mandará “não ser grosso com o colega, dar um abraço de perdão e saber que não é porque ele pensa diferente que é nosso inimigo”?
O diálogo é um exercício interno e que nos requere mais do que acreditamos. Que possamos ouvir com humildade e expor com sabedoria e prudência o que temos a dizer, e assim a silhueta de uma união para se alcançar um comum objetivo poderá ser esboçada.

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