“Exigimos lei e ordem. Estamos de luto pelos policiais mortos hoje”. Quem disse isso durante uma onda de violência que deixou mais de 120 pessoas negras mortas por policiais? Geraldo Alckmin, governador do Estado de São Paulo pelo PSDB, ou o candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano, Donald Trump?

Com taxa de letalidade policial alta e com a violência policial à comunidade negra constante, quem é o autor da frase: “A formação dos nossos policiais é muito rigorosa. Há cursos voltados à questão de direitos humanos, respeito às pessoas. A polícia é extremamente preparada. Ela faz cumprir a lei, mas com respeito às pessoas”? Alckmin ou Trump?

A primeira afirmação é de Donald Trump. A segunda, de Geraldo Alckmin. Vamos comparar os casos. Com dados. De acordo com levantamento publicado pelo jornalista André Caramante, em novembro do ano passado, em 20 anos, a Polícia Militar do Estado de São Paulo matou mais do que todas as polícias dos EUA no mesmo período.

Com uma população 7,5 vezes menor do que os Estados Unidos, onde cerca de 319 milhões de habitantes são atendidos por aproximadamente 17 mil agências policiais, o Estado de São Paulo (43 milhões de moradores) tem uma polícia 53% mais violenta do que todas as norte-americanas reunidas. O que isso significa para o paulistano? Nada. Aliás, significa. Significa muito. Significa um dado positivo.

Significa eleger o mesmo homem ao seu quarto mandato à frente do Estado de São Paulo, no primeiro turno, enquanto as torneiras das casas da população estavam secas. Significa conseguir eleger seu pupilo como prefeito da maior cidade da América Latina no primeiro turno, no lugar de Fernando Haddad, que fazia um mandato mais progressista comparado às gestões anteriores.



Nos EUA, até julho deste ano, 123 pessoas negras foram mortas por policiais. Ou seja, 24% de um total de 509 pessoas mortas por balas de fogo só este ano. Enquanto Barack Obama afirmava que “todos os americanos deveriam estar profundamente perturbados” e que os casos não podiam ser  vistos como “incidentes isolados”, Trump seguia do lado da polícia: “Quantas pessoas e agentes da lei têm que morrer devido à falta de liderança em nosso país?”

Na defesa da polícia paulista, Alckmin retirou do governo ou deixou operando de forma ineficiente três medidas diretas de combate à morte de suspeitos por policiais. Desde 2011, o Estado não conta com a Comissão Especial de Redução da Letalidade. Um grupo criado em 2014, também integrado por setores da sociedade civil, foi desmobilizado antes mesmo de seu funcionamento ideal. E, em funcionamento desde 2002, o Programa de Acompanhamento e Apoio ao Policial Militar fornece assistência psicológica a policias, mas é considerado falho por especialistas.

Nos EUA, em meio à onda de violência policial, Trump sugere a prática policial de detenção e registro. “Se a arma for tirada, o agressor não tem como disparar. A polícia é preventiva. Se vê uma pessoa possivelmente com uma arma ou acredita que pode ter uma arma, revista essa pessoa e confisca a arma”, afirmou à Fox. A prática havia sido considerada por uma juíza federal em 2013 como inconstitucional.

De acordo com organizações americanas que lutam pela defesa dos Direitos Humanos, o programa em questão é a porta aberta à segregação na hora de realizar uma ação policial, já que a maioria das pessoas revistadas são negras e/ou hispânicas.

Assim como Trump foi considerado pela ONU um risco mundial, caso seja eleito, Alckmin foi denunciado pela Conectas à ONU por violência policial. O paulistano que fica horrorizado com Trump e é eleitor de Alckmin é, no mínimo, contraditório. Porque, na prática, eles veem a violência policial e o racismo de maneira muito parecida.

* A imagem que ilustra o artigo é de Ricky Miller, divulgada pela página Black Lives Matter no Facebook.

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