Todos os países democráticos demonstraram ao longo do tempo uma alternância de poder entre partidos de diferentes correntes ideológicas. Com o passar dos anos foi possível criar uma extensa base de dados que possibilitou observar quais práticas levavam ao maior enriquecimento das nações. Dois assuntos são consenso entre todos os policy makers ao redor do mundo. O primeiro é o caso das instituições de um país, como judiciário independente, imprensa livre, aparato regulatório sólido, BC independente entre outros. Tudo isso são aspectos que ajudam – e muito – no desenvolvimento das nações, sendo esse, o ponto crucial para entendermos o porquê de o continente africano ser tão pobre. Mais do que ajuda humanitária, a África precisa de instituições sólidas que garantam previsibilidade no desenvolvimento de um mercado que possa receber investimentos de todo o mundo, algo que países como Hong Kong e Cingapura souberam aproveitar perfeitamente. O outro ponto se refere a globalização. Com a automatização de processos, graças a novas tecnologias, e com a incorporação de mercados antes fechados ao mundo, como no caso chinês, o mundo apresentou um ganho de produtividade muito grande que fez com que uma imensa massa de pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza superasse tal condição e entrassem na classe média. Só no caso Chinês, por exemplo, 700 milhões de pessoas saíram da pobreza desde a abertura comercial do país. Deixo aqui um trecho do economista Thomas Conti sobre o assunto: “Incrível como o tempo passa e as economias mudam rapidamente, mas as narrativas demoram para se atualizar. Nos anos 2000, o PIB per capita brasileiro em paridade do poder de compra era de 9 mil dólares, éramos o 67º país mais rico nesse critério. O da China era de 2,9 mil dólares, ficando na posição 121. Passados 15 anos, em 2015 a renda anual por brasileiro subiu para 15,6 mil dólares, mas caímos para a 80ª posição no ranking mundial. A renda per capita na China alcançou 14,3 mil dólares, subindo para a 88ª posição. Isto é, a renda brasileira que era 200% maior que a Chinesa na virada do século, em 2015 não foi sequer 10% maior. Mas 2015 é só o ano mais recente com dados disponíveis. Segundo as projeções do FMI, 2016 foi o ano que o PIB per capita chinês superou o brasileiro. São mais ricos que nós, as grandes cidades chinesas têm salário mínimo maior que o nosso, mas subsiste no Brasil a narrativa antiquada da China como entreposto de trabalho semi-escravo, péssimos salários, etc.” Tudo isso ocorreu graças ao processo de globalização e inserção da China no mercado internacional.

O grande problema é que os benefícios da globalização em termos de renda são percebidos fortemente nos países subdesenvolvidos, principalmente China, Índia e ex-membros da URSS. Para os países desenvolvidos, os benefícios são dispersos por toda sociedade tornando mais difícil a percepção direta de que o fenômeno vem sendo benéficos a todos. Além disso, a situação se agrava com o fato de que com a incorporação da China e Índia no mercado, o numero de trabalhadores duplicou. Trabalhadores esses que aceitam salários substancialmente inferiores aos praticados no ocidente, fazendo com que os próprios trabalhadores de países como Alemanha e EUA aceitassem manutenção nominal de seus salários ou até cortes nas últimas décadas, com o intuito de manter fábricas indústrias em seus países, uma vez que essas iriam se transferir para o oriente.

Esse é o cenário do mundo hoje, onde países subdesenvolvidos com instituições minimamente sólidas vem fortalecendo cada vez mais sua classe média com incremento de renda, enquanto os países desenvolvidos vem presenciando uma estagnação nesse segmento da sociedade. Dessa forma, discursos populistas que antes eram algo exclusivo do mundo subdesenvolvido, passaram a fazer presença nos países de primeiro mundo. Entretanto, enquanto em países da América Latina o populismo tradicional culpa os EUA, FMI e a globalização pelos nossos problemas, o populismo que surge em países como Grã-Bretanha (Brexit), França (Le Penn), EUA (Trump) e Áustria culpam China, União Europeia e imigrantes de seus países.

Em ambos os populismos, seja o latino americano ou do mundo desenvolvido, a racionalidade dos estudos acerca da sociedade são deixados de lado e a voz passa a ser o motor do debate público. Por mais que o TPP seja passível de críticas, ele instauraria um comércio mais aberto que o existente anteriormente. Assim como a União Européia também possibilitou maior liberdade comercial entre todos esses países.

Talvez o maior problema do populismo seja de que no curto prazo normalmente ele traz resultados benéficos para a sociedade. Entretanto, quando todos percebem que o caminho não segue em boa direção, normalmente o resultado já está impossibilitado de mudanças.

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