O grande problema brasileiro é a falta de qualidade no debate que cerca toda e qualquer política pública. Estamos imersos ainda em um contexto latino americano que faz do debate uma guerra de retóricas, onde dados e evidências são deixados de lado, sobrando apenas espantalhos criados a todos os lados.

Países desenvolvidos normalmente possuem um debate público de muito mais qualidade, em que as divergências políticas são focadas em temas muito suscetíveis a emoções na sociedade – como aborto, política de drogas e imigração. Entretanto, temas como abertura comercial, independência do BC, liberdade econômica, além de outros, são consenso em qualquer sistema político, mesmo que quase bipartidário, tendo a velha dicotomia entre esquerda e direita ainda vigente.

Entretanto, nos últimos tempos, principalmente com a crise de 2008, esse consenso existente acerca de temas como abertura comercial e liberdade econômica entre os maiores partidos acabou ficando para trás em certos países. A ascensão de partidos mais extremistas tanto de esquerda, na Espanha e Grécia, como de direita, na Áustria e França, mostra que o discurso populista de fácil resolução tem tido convergência em diferentes sociedades.

Os EUA são um desses países que costumavam ter um debate político de qualidade, em que a economia era um tópico com divergências pontuais entre os dois partidos. Entretanto, essa nova eleição mostrou que o debate de políticas públicas foi deixado de lado para vigorar a nova lei máxima do debate mundial: o gogó.

Donald Trump é provavelmente o maior culpado dessa história, com o seu discurso de repostas fáceis, culpando outros países pelo fracasso recente americano, em que as soluções ao invés de sustentáveis no longo prazo se mostram apenas como uma resposta a uma população cansada das “moderadas” atitudes do governo. Trump é uma versão moderada de Bolsonaro, com um discurso anti politicamente correto que beira ao preconceito muitas vezes – com a diferença que ele não apóia regimes ditatoriais e é a favor do casamento gay. O magnata é tão aberto a essa questão que ele apóia inclusive o uso de qualquer banheiro para pessoas transgêneras. Entretanto, teve que moderar seu discurso mais para o conservadorismo devido a clássica posição anti casamento gay do partido republicano. Mas não é apenas nesse tema que ele tem fortes divergências com o partido. Enquanto tradicionalmente republicanos se posicionam fortemente a favor do livre mercado, deixando políticas protecionistas mais para o partido democrata, Trump faz constantes críticas a acordos de livre comércio como Nafta e contra a perda de empregos para a China e México.

Donalt Trump representa esse populismo com respostas fáceis que vem afetando a sociedade como um todo. E é exatamente por isso que existe o real risco dele ainda voltar a crescer nas eleições. Depois de tantos escândalos durante a campanha, o país ainda conta com boa parte dos eleitores indecisos, mostrando que embora Trump tenha sido destroçado por suas atitudes machistas e xenófobas, ele tem uma força muito grande. Ora, se alguém ainda está em dúvida mesmo depois de tudo que Trump fez e falou,  mostra que o sentimento anti stablishment causado pela imagem de Hillary é tão forte quanto o sentimento anti extremismo criado por Trump. Mas Hillary é política e os americanos estão cansados da política. E Trump pode não ganhar nessa, mas continuará forte para o futuro.

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