Os últimos dias foram de muito tumulto na política brasileira. Com o furo jornalístico feito pelo jornal O Globo, tornaram-se públicos fatos bastante comprometedores para as principais figuras políticas brasileiras: Michel Temer, Aécio Neves, Dilma Rousseff, Guido Mantega, enfim, a turma toda. Logo em seguida, foram divulgados os áudios que podem significar o impeachment de Temer. Mas, sem entrar no mérito da base para o impeachment, este episódio com Joesley Batista tem um potencial muito grande para que os brasileiros tirem lições e conclusões para o futuro.

Antes de qualquer coisa, é importante que jamais se esqueça da pergunta mais fundamental para evitarmos que essas atrocidades aconteçam de novo: por que existiu esse esquema?

Primeiramente, é preciso compreender a essência dos esquemas de corrupção no Brasil. E, conforme demonstra a prática, considerando envolvidos os maiores partidos políticos brasileiros, não há distinção por legendas ou preferências político-partidárias. Todos entraram no jogo: PT, PSDB e PMDB. Trata-se, pois, de um problema estrutural do Estado brasileiro, e não uma superioridade ou inferioridade moral deste ou daquele partido (ainda que um tenha roubado mais do que outro). O buraco é mais embaixo.

O que o Brasil está sofrendo hoje em dia é fruto direto do modelo de Estado que se estabeleceu desde os primórdios da República. Trata-se do tal “capitalismo de Estado”, ou “capitalismo de compadres”, que, na verdade, nada de capitalismo. Em essência, o Brasil tem um Estado corporativista. “Nada fora do Estado, nada contra o Estado, mas tudo dentro do Estado”, como diria Benito Mussolini, líder do corporativismo fascista italiano. E, com isso, para parte considerável dos grandes empresários, torna-se bastante lucrativo ter contatos dentro do Estado, já que tudo é controlado pelo Estado.

Em um modelo de Estado onde o poder é pouco limitado e bastante concentrado nas mãos de poucas pessoas, é mais do que esperado que as instituições econômicas sigam um padrão bastante parecido: concentração, monopólio, subsídios e privilégios para poucos às custas de muitos. A partir do momento que um político tem poder de escolha sobre a lucratividade de uma empresa (com empréstimos subsidiados por um banco nacional do desenvolvimento, como o BNDES, por exemplo), cria-se um perverso incentivo para que os grandes empresários não tentem lucrar oferecendo melhores serviços ao mercado consumidor, mas sim conquistando o privilégio de se colocar na agenda de contatos próximos do Presidente da República. Some-se a esse incentivo perverso a impunidade que, até alguns anos atrás, parecia a regra para os ricos e poderosos.

Em sua carta aberta, Joesley Batista escreveu: “Nosso espírito empreendedor e a imensa vontade de realizar, quando deparados com um sistema brasileiro que muitas vezes cria dificuldades para vender facilidades, nos levaram a optar por pagamentos indevidos a agentes públicos. Ainda que nós possamos ter explicações para o que fizemos, não temos justificativas”. E, por mais criminoso que seja, com esta passagem, Joesley explicou boa parte dos problemas brasileiros.

Já dizia o jornalista P.J. Ourke: “a partir do momento que se legisla sobre o comércio, a primeira coisa a ser comprada e vendida será o legislador”. E, se quisermos resolver o problema da corrupção no País, sim, é essencial que punamos os envolvidos em escândalos revelados até o momento. Mas é igualmente necessário que repensemos o modelo de Estado e poder que cada governo brasileiro dispõe ao conquistar 51% dos votos válidos.

Entretanto, vale notar: por mais preciosas que tenham sido as lições ensinadas por Joesley Batista, é inadmissível saber que, atualmente, seu acordo de delação o livrará da cadeia e permitirá uma vida tranquila em Nova York junto a sua família. E, como se não bastasse, um dia antes da divulgação dos áudios envolvendo Michel Temer, a JBS realizou uma colossal compra de dólares para poder lucrar no dia seguinte, quando, com certeza, diante de tamanho impacto das informações da delação, o real com certeza desvalorizar-se-ia. Joesley Batista não pode sair impune e deve ir para a prisão.

O Brasil é para amadores? Não, não é. Definitivamente.

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