Chegamos ao dia da eleição presidencial norte-americana e o resultado encontra-se, de fato, muito aberto. A eleição coloca em confronto dois candidatos muito opostos. De um lado um poderoso empresário, com igualmente sólida carreira midiática, absolutamente outsider e estranho ao meio político e do outro a esposa de um ex-presidente americano, afinada com o establishment político do país e o atual presidente.

Numa pesquisa rápida pelos principais portais de notícias brasileiros encontramos principalmente termos negativos em relação a Donald Trump e pouquíssima coisa, positiva ou negativa, sobre Hillary Clinton. A impressão que a maioria dos brasileiros tem é moldada por este conteúdo da mídia mainstream, encabeçada pelos grandes grupos de mídia brasileiros, e na mídia “alternativa” ou underground o padrão de ataques ao milionário se repetem.

Este fenômeno eleitoral foi forjado sob pesado ataque durante toda a primária do Partido Republicano (GOP), tanto dos pré-candidatos quanto dos poderosos deputados e senadores do partido. A mídia norte-americana não aliviou para o “filho” do seu espaço em nenhum momento desde as primárias e até agora. O passado do candidato foi continuamente revirado, e várias incongruências do homem Trump em relação ao candidato foram expostas com grande alarde. Não obstante, Trump chega no dia 08 ainda com chances.

Esta realidade inusitada, e apregoada como impossível por muitos especialistas políticos há pouco mais de um ano atrás, nos leva a seguinte questão: Uma vitória de Donald Trump seria uma catástrofe para os EUA e o restante do mundo?

A quem realmente interessa a resposta à essa questão é o eleitor norte-americano. Fora dos EUA podemos fazer várias conjecturas, mas para o eleitor que hoje irá se dispor a deixar o ambiente de trabalho por algum tempo para votar elas são absolutamente irrelevantes. A classe trabalhadora média norte-americana mostrou-se muito dividida em relação a intenção voto. Imigrantes e minorias étnicas, porém, ao menos segundo as pesquisas, “fecham” com a candidata apoiada por Barack Obama. Ambos os candidatos acenaram propostas, na prática, protecionistas e restritivas ao livre-mercado, acusado e sentido pelo trabalhador médio norte-americano como o principal responsável pela redução brusca de empregos no país e quase falência de amplos setores industriais.



Essa percepção leva a região central dos EUA, por exemplo, região mais afetada pela fugida de fábricas e indústrias para outros países, a penderem o voto em Donald Trump, que mirou no início da campanha, quando propostas ainda eram o foco principal e não escândalos pessoais, fogo nos empregos que emigraram para a China. Em Nebraska, por exemplo, as pesquisas dão 90% das intenções de voto para Trump.

De uma maneira geral, um êxito de Trump só confirmaria o triunfo de uma tese que já venceu no Brexit: entre a classe trabalhadora dos países desenvolvidos sente-se uma profunda decepção com o livre-mercado e o multiculturalismo apregoado como discurso ideológico e, porque não, espiritual que prevaleceu após a derrocada dos regimes comunistas no fim do século XX. Não à toa a Frente Nacional francesa, também nacionalista e contrária ao livre-mercado, aparece muito forte para as próximas eleições e certamente empurrará a direita tradicional francesa ainda mais para a direita. No leste europeu, em países como Polônia, Hungria e Rússia, também tem prevalecido, eleitoralmente, o senso de isolamento e protecionismo. Mesmo na Escandinávia, “paraíso” de sociais-democratas e liberais, a depender do ponto de vista, os partidos isolacionistas tem crescido.

Curiosamente, isso entra em confronto ao mesmo tempo com a posição dos comunistas chineses e da direita cada vez mais forte no Brasil e América Latina, que tem migrado marcadamente para o liberalismo. A esquerda brasileira apenas colou-se num discurso de que o fortalecimento desta direita é prejudicial aos trabalhadores e sociedade como um todo, por reforçar xenofobia e outras intolerâncias, mas o que realmente pensa o indivíduo que sai de casa às 6h e volta depois das 20h? O que sente este indivíduo? Será que ele realmente se importa que um político considera mulheres objetos ou não é capaz de cuidar do sigilo de documentos extremamente confidenciais?

Este nosso momento político é bem inusitado, mas não tão novo assim na história dessa sociedade capitalista em desenvolvimento e rápidas transformações: são os indivíduos à direita da direita que tem captado os anseios da classe trabalhadora com um discurso que mira em pilares do desenvolvimento deste capitalismo, o livre-mercado, mas também é repulsivo à maior parte dos quadros da esquerda. Hillary ou Trump, o momento histórico parece propício a confirmar uma velha máxima de Marx: A primeira como tragédia e a segunda como farsa.

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